23 outubro 2010

Patrimônio e memória em foco

O antropólogo Edgard de Assis Carvalho comenta o livro 'Patrimônios Bioculturais', de Alexandre F. Corrêa

por Edgard de Assis Carvalho

Pode-se constatar que o conjunto brasileiro de bens tombados já é bastante expressivo. Mesmo que a equivocada distinção entre bens materiais e imateriais (Decreto nº 3.551/2000) – sem dúvida uma sequela da dualidade cartesiana natureza e cultura – seja ainda mantida nos dias correntes, a salvaguarda de terreiros, parques, igrejas, monumentos, florestas, vilas, bairros atestam que o homo sapiens não é apenas fabricador de instrumentos, mas um aliciador de expressões universais que jamais serão apagadas da memória da espécie; apesar da unidimensionalidade do progresso e da técnica, assim como da insensibilidade do poder e da política, quaisquer que sejam eles.
Costuma-se a dividir a história da preservação no Brasil em duas fases: a ‘heroica’, capitaneada por Rodrigo Melo Franco de Andrade, na direção do IPHAN e Mário de Andrade, no Departamento Municipal de Cultura da cidade de São Paulo, até 1938, ambos responsáveis pelas primeiras formulações conceituais; e, a ‘moderna’, consolidada a partir da aposentadoria de Rodrigo, em 1967, mais uma vez em plena ditadura militar, e pela entrada em cena de Aloísio Magalhães no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN; sigla que permanece até hoje, vinculada ao Ministério da Cultura.
A necessidade de se inserir o Brasil numa verdadeira política de civilização faz supor que uma terceira fase, civilizatória, pode ser o horizonte cognitivo e biopolítico a ser ativado pelos guardiões da conservação e da sustentabilidade da cultura. Tal aspecto é analisado no livro quando o autor enfoca o que designou de ‘Complexo de Dédalo’, traço característico da retórica dominante, sustentada por investimentos sem precedentes na sociotécnica e na tecnocracia; uma das consequências hodiernas da ‘virada cultural’ do capitalismo tardio.
Em busca de um equilíbrio da atuação preservacionista no espaço social do patrimônio e da memória, Alexandre Corrêa procura, pela da crítica dos excessos da patrimonialização e dos riscos da petrificação da memória, promover o debate em torno das garantias e salvaguardas da criatividade e da arte popular.

O DIFERENCIAL

A antropologia de emergência, proposta pelo autor como uma “operação humanista de recuperação de saberes, fazeres e dizeres” situam-se nesse foco analítico e certamente exigirá uma ecoalfabetização de todos os setores sociais.
Caso venha a contaminar os órgãos preservacionistas, estatais ou não, poderia projetar o Brasil como um País preocupado consigo mesmo, consciente de que tem algo a dizer e comunicar para o planeta como um todo.
Tenho convicção que qualquer indivíduo que se aventure nos árduos caminhos da preservação dos patrimônios bioculturais deve empenhar-se nessa missão humanista e regeneradora de uma Terra-Pátria que faz jus a esse nome.
Esse é o objetivo maior a que Alexandre Corrêa se propôs em sua tese de doutorado defendida na PUC-SP em 2001, transformada num livro instigante e desafiador.

* Edgard de Assis Carvalho é antropólogo e professor de Antropologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESSO/Edicoes/31/artigo187539-2.asp

2 comentários:

José María Souza Costa disse...

Adorei, amei o blog e o texto como sempre brilhante. estou lhe convidando a visitar o meu blog, para se possivel seguirmos juntos por eles, e interagirmos
Estarei grato lhe esperando aqui
http://josemariacostaescreveu.blogspot.com

Alásia disse...

Olá Alexandre, parabén pelo blog!
Estou retornando o recado que você deixou em um blog que tenho com uma amiga no wordpress. Não respondi porque o blog estava cadastrado num email do hotmail que tive problemas. Resolvi retomar as atividades nesse blog da wordpress (estudos culturais) e gostaria de manter interlocuções com quem pesquisa o tema. Estou concluindo minha tese na linha estudos culturais. Analiso, no discurso da univ. aberta do Brasil (UAB), o enunciado tecnologia como discurso e como dispositivo, mediando a discussão a partir do pensamento de Michel Foucault e Deleuze. Vejo se as tecnologias digitais no discurso da UAB se aproximam ou diatancia-se dos estudos culturais.
A partir de amanhã voltarei a postar minhas impressões e gostaria que você fosse mais um interlocutor. (desculpe escrever tanto) :)
Abraço