10 dezembro 2010

INTRODUÇÃO A UMA VIDA NÃO FASCISTA

Durante os anos 1945-1965 (falo da Europa) existia uma certa forma correta de pensar, um certo estilo de discurso político, uma certa ética do intelectual. Era preciso ser unha e carne com Marx, não deixar seus sonhos vagabundearem muito longe de Freud e tratar os sistemas de signos - e significantes - com o maior respeito. Tais eram as três condições que tornavam aceitável essa singular ocupação que era a de escrever e de enunciar uma parte da verdade sobre si mesmo e sobre sua época.
Depois, vieram cinco anos breves, apaixonados, cinco anos de jubilação e de enigma. Às portas de nosso mundo, o Vietnã, o primeiro golpe em direção aos poderes constituídos. Mas aqui, no interior de nossos muros, o que exatamente se passa? Um amálgama de política revolucionária e anti-repressiva? Uma guerra levada por dois frontes - a exploração social e a repressão psíquica? Uma escalada da libido modulada pelo conflito de classes? É possível. De todo modo, é por essa interpretação familiar e dualista que se pretendeu explicar os acontecimentos desses anos. O sonho que, entre a Primeira Guerra Mundial e o acontecimento do fascismo, teve sob seus encantos as frações mais utopistas da Europa - a Alemanha de Wilhem Reich e a França dos surrealistas - retornou para abraçar a realidade mesma: Marx e Freud esclarecidos pela mesma incandescência.
Mas é isso mesmo o que se passou? Era uma retomada do projeto utópico dos anos trinta, desta vez, da escada da prática social? Ou, pelo contrário, houve um movimento para lutas políticas que não se conformavam mais ao modelo prescrito pela tradição marxista? Para uma experiência e uma tecnologia do desejo que não eram mais freudianas? Brandiram-se os velhos estandartes, mas o combate se deslocou e ganhou novas zonas.
O Anti-Édipo mostra, pra começar, a extensão do terreno ocupado. Porém, ele faz muito mais. Ele não se dissipa no denegrecimento dos velhos ídolos, mesmo se se diverte muito com Freud. E, sobretudo, nos incita a ir mais longe.
Ler o Anti-Édipo como a nova referência teórica seria um erro de leitura (vocês sabem, essa famosa teoria que se nos costuma anunciar: essa que vai englobar tudo, essa que é absolutamente totalizante e tranqüilizadora, essa, nos afirmam, “que tanto precisamos” nesta época de dispersão e de especialização, onde a “esperança” desapareceu). Não é preciso buscar uma “filosofia” nesta extraordinária profusão de novas noções e de conceitos-surpresa. O Anti-Édipo não é um Hegel brilhoso. A melhor maneira, penso, de ler o Anti-Édipo é abordá-lo como uma “arte”, no sentido em que se fala de “arte erótica”, por exemplo. Apoiando-se sobre noções aparentemente abstratas de multiplicidades, de fluxo, de dispositivos e de acoplamentos, a análise da relação do desejo com a realidade e com a “máquina” capitalista contribui para responder a questões concretas. Questões que surgem menos do porque das coisas do que de seu como. Como introduzir o desejo no pensamento, no discurso, na ação? Como o desejo pode e deve desdobrar suas forças na esfera do político e se intensificar no processo de reversão da ordem estabelecida? Ars erótica, ars theoretica, ars politica.
Daí os três adversários com os quais o Anti-Édipo se encontra confrontado. Três adversários que não têm a mesma força, que representam graus diversos de ameaça e que o livro combate por meios diferentes.

1) Os ascetas políticos, os militantes sombrios, os terroristas da teoria, esses que gostariam de preservar a ordem pura da política e do discurso político. Os burocratas da revolução e os funcionários da verdade.

2) Os lastimáveis técnicos do desejo - os psicanalistas e os semiólogos que registram cada signo e cada sintoma e que gostariam de reduzir a organização múltipla do desejo à lei binária da estrutura e da falta.

3) Enfim, o inimigo maior, o adversário estratégico (embora a oposição do Anti-Édipo a seus outros inimigos constituam mais um engajamento político): o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e de Mussolini - que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas -, mas o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar essa coisa que nos domina e nos explora.

Eu diria que o Anti-Édipo (que seus autores me perdoem) é um livro de ética, o primeiro livro de ética que se escreveu na França depois de muito tempo (é talvez a razão pela qual seu sucesso não é limitado a um “leitorado” particular: ser anti-Édipo tornou-se um estilo de vida, um modo de pensar e de vida). Como fazer para não se tornar fascista mesmo quando (sobretudo quando) se acredita ser um militante revolucionário? Como liberar nosso discurso e nossos atos, nossos corações e nossos prazeres do fascismo? Como expulsar o fascismo que está incrustado em nosso comportamento? Os moralistas cristãos buscavam os traços da carne que estariam alojados nas redobras da alma. Deleuze e Guattari, por sua parte, espreitam os traços mais ínfimos do fascismo nos corpos.
Prestando uma modesta homenagem a São Francisco de Sales, se poderia dizer que o Anti-Édipo é uma Introdução à vida não fascista.[1]
Essa arte de viver contrária a todas as formas de fascismo, que sejam elas já instaladas ou próximas de ser, é acompanhada de um certo número de princípios essenciais, que eu resumiria da seguinte maneira se eu devesse fazer desse grande livro um manual ou um guia da vida cotidiana:

- Libere a ação política de toda forma de paranóia unitária e totalizante;
- Faça crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, mais do que por subdivisão e hierarquização piramidal;
- Libere-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, a castração, a falta, a lacuna), que o pensamento ocidental, por um longo tempo, sacralizou como forma do poder e modo de acesso à realidade. Prefira o que é positivo e múltiplo; a diferença à uniformidade; o fluxo às unidades; os agenciamentos móveis aos sistemas. Considere que o que é produtivo, não é sedentário, mas nômade;
- Não imagine que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo que a coisa que se combata seja abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga, nas formas da representação) que possui uma força revolucionária;
- Não utilize o pensamento para dar a uma prática política um valor de verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele fosse apenas pura especulação. Utilize a prática política como um intensificador do pensamento e a análise como um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política;
- Não exija da ação política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo, tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é o produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação, o deslocamento e os diversos agenciamentos. O grupo não deve ser o laço orgânico que une os indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”;

E MAIS IMPORTANTE: - Não caia de amores pelo poder.

Se poderia dizer que Deleuze e Guattari amam tão pouco o poder que eles buscaram neutralizar os efeitos de poder ligados a seu próprio discurso. Por isso os jogos e as armadilhas que se encontram espalhados em todo o livro, que fazem de sua tradução uma verdadeira façanha. Mas não são as armadilhas familiares da retórica, essas que buscam seduzir o leitor, sem que ele esteja consciente da manipulação, e que finda por assumir a causa dos autores contra sua vontade. As armadilhas do Anti-Édipo são as do humor: tanto os convites a se deixar expulsar, a despedir-se do texto batendo a porta. O livro faz pensar que é apenas o humor e o jogo aí onde, contudo, alguma coisa de essencial se passa, alguma coisa que é da maior seriedade: a perseguição a todas as formas de fascismo, desde aquelas, colossais, que nos rodeiam e nos esmagam até aquelas formas pequenas que fazem a amena tirania de nossas vidas cotidianas.

Michel Foucault

[1] Francisco de Sales. Introduction à la vie devote (1064). Lyon: Pierre Rigaud, 1609


Livro - Editora Autêntica: http://www.autenticaeditora.com.br/download/capitulo/20091026152510.pdf

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PRÁTICAS FASCISTAS NO COTIDIANO

É sintomático que no nosso cotidiano tenhamos atitudes condescendentes com as práticas e comportamentos fascistas, que podem ser identificados rotineiramente; mas que são considerados menos perigosos e até aceitos, no exercício contumaz da cordialidade. É espantoso, por exemplo, encontrarmos em instituições que deveriam, em tese, preservar, defender e difundir os valores democráticos, como são as Universidades, nós testemunharmos o cultivo de valores fascistas e perversos. Nosso conformismo cotidiano é tão cínico e individualista, tão egoísta e anti-social, que nos deixamos cegar para as práticas mais abomináveis, exercidas em ambientes universitários e escolares. É espantoso observarmos docentes, pesquisadores e demais funcionários de Universidades aceitarem atitudes fascistas, na administração de unidades como Departamentos, Centros, Institutos, Programas de Pós-graduação, etc. Professores e pesquisadores que em sala de aulas fazem discursos radicais, revolucionários, liberais, libertários, etc. mas que aceitam a gestão despótica de verdadeiros autoritários e déspotas! É incrível o esquizoidismo desses nosso professores e pesquisadores que não se revoltam contra a proliferação de personalidades perversas e fascistóides nesses ambientes burocráticos, nichos ecológicos primordiais para a reprodução desse tipo de vírus fascista e nazista. É escandalosa a conivência subalterna de pseudo-revolucionários em ambientes autoritários. Causa embrulho no estômago ver e observar a cretinice de pessoas cindidas, fingirem se indignar com as injustiças e as arbitrariedades, mas que são incapazes de se rebelar contra a perversidade e  autoritarismo de chefes de repartição, diretores de instituição, pseudo-autoridades de plantão. Compreende-se que professores e pesquisadores de direita, declaradamente fascistas e militaristas, aceitem a subalternidade, mas declarados esquerdistas, revolucionários, liberais e libertários, ser coniventes com o fascismo no seu ambiente de trabalho é desmoralizante, é vergonhoso, é chocante!
A estrutura de conduta fascista está disseminada no cotidiano e na formação subjetiva dominante, a Peste Emocional é fascista! No nosso cotidiano estamos convivendo com diferente tipos de Zé Ninguéns, que preferem se submeter e se assujeitar aos pais despóticos institucionais, do que promover a libertação e a emancipação do pensamento e do conhecimento. Essas estrutura fascista está impregnada nas entranhas da formação subjetiva e nos interpela a todo instante. Somos fascistas porque estas estruturas estão disseminadas no cotidiano. Lutar contra o fascismo é lutar contra as estruturas fascistas que estão entranhadas em nós mesmos: é lutar contra instâncias de nossa formação subjetiva mais íntima. É uma transformação violenta, dilacerante e radical. Para tal, é preciso novos homens e novas mulheres. Os velhos homens e velhas mulheres já estão presos nas teias do fascismo; e gozam com ele...
Eis a revolução mais difícil: a revolução em sí mesmo!        

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BATEPAPO: texto de Foucault é tema de encontro
Com mediação do professor Romualdo Dias, da Unesp, e participação de Carlos José Martins, doutor em Filosofia pela UFRJ e professor do Departamento de Educação Física da Unesp, mais uma edição do Batepapo Cultural acontece neste domingo (25/10/2010), às 20h, no prédio do Arquivo Público e Histórico de Rio Claro. O tema do encontro é "A propósito de uma vida não fascista em tempos conturbados".
Esse Batepapo Cultural tem como referência inspiradora o texto “Introdução a uma vida não fascista”, do filósofo francês Michel Foucault, e pretende colocar em perspectiva nossas práticas ético-políticas à luz de alguns autores – como Nietzsche, Foucault, Deleuze e Spinoza – que frisaram a relevância de uma atitude de insubmissão e resistência aos poderes como expressão de vitalidade e singularidade de um estilo de vida.
O Batepapo Cultural é um evento mensal organizado pela parceria entre a Prefeitura Municipal e a Unesp, com organização do Arquivo Público e da Secretaria de Cultura, que tem trazido para Rio Claro o encontro entre pesquisadores de diferentes áreas e a comunidade, sempre com a preocupação de apresentar um outro olhar para a realidade, com novos desafios a serem aprendidos.


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A ONDA (Die Welle, 2008)

[Texto adaptado do Blog referido abaixo]
Há muito tempo que um filme não impressiona tanto como o alemão “A onda” (Die Welle, 2008), baseado na história verdadeira de Ron Jones, um professor na Califórnia. Uma aula de teoria política, a partir do desinteresse dos alunos, o mestre propôs uma aula embasada nos pressupostos dos regimes fascistas que culminou em uma reação impressionante dos alunos, que inicialmente eram trinta e em apenas quatro dias atingiram a impressionante quantidade de duzentos discentes. O que perturba é o aspecto psicológico das massas na construção fascismo. Adolescentes apáticos em relação à política, de repente tornam-se ativistas proliferando ódio e ideais e reafirmando a disciplina, o espírito de grupo e a supremacia de valores.
O psicanalista alemão Wilhelm Reich, em seu livro psicologia de massa do fascismo, prioriza a idéia de que o fascismo não foi algo ideológico imposto uma massa alienada, mas sim desejado pela mesma. Ao ler a magna biografia que Safranski faz de Heidegger, percebe-se o quão esperançoso foi o Nacional-socialismo e a figura de Adolf Hitler para o povo alemão, como diz o próprio Heidegger: No começo doa anos 30 às diferenças de classe em nosso povo tinham-se tornado intoleráveis para todos os alemães com senso de responsabilidade social, bem como o pesado ônus econômico da Alemanha devido ao Tratado de Versailles. No ano de 1932 havia 7 milhões de desempregados que, com suas famílias, só podiam esperar pobreza e necessidade. A perturbação devido a essas condições, que a atual geração nem consegue mais imaginar, também atingiu as universidade [...] Tais enganos já aconteceram com homens maiores do que eu: Hegel viu em Napoleão o espírito do mundo e Hölderlin o viu como o príncipe da festa a qual os deuses e Cristo foram convidados.
O fascismo, como escreveu Foucault, não existe apenas no âmbito ditatorial e centralizado de Mussolini e Hitler, mas também em todos nós, que assombra nosso espírito e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, deseja esta coisa mesma que nos domina e nos explora ("uma Introdução à vida não-fascista"). O fascismo não é algo externo que se restringe aos alemães, tanto que a experiência do professor Ron Jones, foi desenvolvida em uma escola dos EUA, onde o meio cultural divergia totalmente daquele encontrado na Alemanha cerca de 30 anos antes.
Deleuze e Guattari em seu rizomático livro Mil Platôs, salientam a idéia de Foucault: "Mas o fascismo é inseparável de focos moleculares, que pululam e saltam de um ponto a outro, em interação, antes de ressoarem todos juntos no Estado nacional-socialista. Fascismo rural e fascismo de cidade ou de bairro, fascismo jovem e fascismo ex-combatente, fascismo de esquerda e de direita, de casal, de família, de escola ou de repartição: cada fascismo se define por um microburaco negro, que vale por si mesmo e comunica com os outros, antes de ressoar num grande buraco negro central generalizado".”.
O fascismo não é algo macro e sim molecular, não centralizado e sim disseminado, metástase cancerígena, não existem fascismos e sim disseminações fascistas em micro-escalas. O nazismo foi a exponenciação da subjetividade dos microfascimos, que não tem fronteira e ainda hoje ganham campo em cima do vazio existencial e da vida niilista da contemporaneidade. O vazio e a angústia do homem contemporâneo são campos abertos para a disseminação e busca de um padrão hegemônico, lacunas que foram aproveitadas pelos governos ditatoriais e culminaram nas grandes desgraças vistas no século passado..
O final do filme, a partir desse discurso torna-se previsível. No facismo impera a vontade de destruição: É curioso como, desde o início, os nazistas anunciavam para a Alemanha o que traziam: núpcias e morte ao mesmo tempo, inclusive a sua própria morte e a dos alemães. Eles pensavam que pereceriam, mas que seu empreendimento seria de toda maneira recomeçado: a Europa, o mundo, o sistema planetário. E as pessoas gritavam bravo, não porque não compreendiam, mas porque queriam esta morte que passava pela dos outros. É como uma vontade de arriscar tudo a cada vez, de apostar a morte dos outros contra a sua (Mil Platôs 3). A metáfora da metástase ganha mais força, e o regime suícida do fascismo anula-se: O telegrama 71 — Se a guerra está perdida, que pereça a nação — no qual Hitler decide somar seus esforços aos de seus inimigos para consumar a destruição de seu próprio povo, aniquilando os últimos recursos de seu habitat, reservas civis de toda natureza (água potável, carburantes, víveres, etc.) é o desfecho normal...(Idem).

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