09 fevereiro 2011

Enigmas da Modernidade-Mundo

DICA DE LEITURA


Enigmas da Modernidade-Mundo 
Octavio Ianni / Civilização Brasileira Rio de Janeiro 2000



Octavio Ianni soltou a veia poética, e nos brinda com um texto científico imensamente rico na abrangência da visão, e de grande beleza na forma. Emergem, na realidade, visões que já estavam presentes em textos anteriores, mas que agora parece que alçam vôo. Segmentos de raciocínio adquirem forma e coerência integrada: “há uma nova realidade cultural no mundo.” 

“Ocorre que todos, indivíduos e coletividades, se constituem como atores de um vasto e infindável espetáculo. Um espetáculo que se desenrola em vários palcos, diferentes, separados, justapostos e mesclados. Um desses palcos tem sido a nação, palco no qual se encontra uma profusão de cenários,que se alteram, rearranjam ou transformam, conforme o jogo das forças sociais. Todos, indivíduos e coletividades, são reais, como personagens: principais e secundários, conscientes e inconscientes, assumidos e sonâmbulos. Formam-se ao acaso, na trama das relações sociais e no jogo das forças sociais. São carentes, inacabados, mutilados ou desesperados, assim como podem ser assumidos, exigentes, autoconscientes. Podem ser mandantes, dirigentes ou dominantes, assim como humilhados, subalternos ou alienados. Nesse sentido é que a nação ´pode ser vista como um imenso palco, no qual se desenrola um vasto e infindável espetáculo, onde uns e outros buscam ou afirmam seu papel, fisionomia e identidade, ou autoconsciência, descortino e humanidade” (177).


Não é bonito? Não há como não lembrar o sentimento que Shakespeare sempre apresentou ao traduzir a grandiosidade e a pequenez dos nossos espetáculos: “Life is but a walking shadow, a poor player that frets and struts his hour upon the stage, and then is heard no more. It is a tale, told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing”. O que se sento no texto do Ianni, no entanto, não é uma desilusão, e sim um fascínio com o nosso drama humano. E um aporte fundamental em termos metodológicos, ao abrir de forma radical o leque de questionamentos, visões que em outros textos já se encontravam no enfoque de “ruptura epistemológica”, mas que agora encontram forma, difusa ainda, porque a mudança que vivemos ainda não se cristaliza senão de forma insegura, mas que rompe integralmente com visões por vezes estreitas que herdamos do debate político.

As técnicas, naturalmente, não bastam. “De tanto organizar, sistematizar, contabilizar, calcular, burocratizar, modernizar ou racionalizar, o homem moderno acaba por se ver metido em uma prisão de ferro, provavelmente sem porta nem janela. De repente, se vê delimitado, confinado,m subordinado, adjetivado, administrado. O seu engenho e a sua técnica traduzem-se em redes, emaranhados, teias, prisões. Aos poucos, as criaturas submetem o criador, como em um mundo cada vez mais fantasmagórico.” (186)

Ianni visita as grandes sombras que constituem os nossos pontos de referência mais ou menos assumidos, Hamlet ou Dom Quixote, Maquiavel ou Kafka, Marx e Weber, numa pintura que é impressionista no método, ao trabalhar com manchas que só adquirem sentido com certa distância, mas profundamente humanista no objetivo. 

A leitura, curiosamente, nos deixa com um profundo sentimento de felicidade, de reconciliação com os personagens, a coreografia, o espetáculo.



Comentário por Ladislau Dowbor - 16/06/2001

FONTE: http://dowbor.org/resenhas_det.asp?itemId=c8743dd8-75b4-40ec-8897-e9fc41a59ee4

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