08 março 2011

Carnaval da Tradição e Multicultural!

Causa espécie ouvir anunciado aos ventos, os temas e lemas dos carnavais locais e regionais. São slogans difundidos pela mídia, em diferentes estados do país. No Maranhão, nesse ano de 2011, o lema é `Carnaval da Tradição`! Em Pernambuco, patrocinado pela Band Folia, é `Carnaval Multicultural`!
Trata-se de uma dialética interessante, colocar estes slogans em relação, uns com os outros. Numa época em que já se fala em Pós-Samba, Pós-Identidades, Desconstrução do Carnaval, etc., é curioso esse jogo de figuras e imagens que cada Secretaria de turismo e cultura dos estados tenta marcar e particularizar - através dos recursos de merchandising e marketing - no grande mosaico cultural e carnavalesco do Brasil. Mas é também uma oportunidade de refletir sobre aspectos pouco comentados acerca da produção simbólica contemporânea.
No Maranhão, ao invocar o signo da `Tradição` somos convidados a pensar sobre o anacronismo dessa fixação desatualizada historicamente. Em pleno processo de mundialização cultural do planeta, é curioso ver um dos estados mais pobres do país, fixar sua produção simbólica na cena patrimonializada, antiga, tradicional, passadista... Ao signo da `tradição` cultuada, somam-se os signos de `raíz`, `passado`, `memória`, `histórico`, `folclore`, etc. Numa época que se investe tanto na `criatividade`, na ousadia, na diferença, é interesssante os publicitários e agentes culturais locais ainda investirem fortemente nesse `diferencial` de um `Carnaval da Tradição`! Tem uma dialética rica em antagonismo e contradição; embora, subjacente e inconsciente... Pergunta-se: ser criativo hoje é saber usar o passado, ou a tradição, de forma atrativa para o mercado de consumo cultural? Ser diferente é saber dar valor ao produto antigo, da memória, dos velhos carnavais, da senzala, dos mocambos, das Casa-Grandes, dos tempos da Escravidão? Ser criativo é re-investir e re-significar as heranças do passado (e assim continuar preso a elas indefinidamente)? Que estranha dialética! Parece que estamos em plena crise do futuro, e da própria criatividade: ruínas do tempo pretérito (mais-que-imperfeito), com sua fantasmagoria a assombrar a mente dos vivos...
Já o `Carnaval Multicultural` de Pernambuco, parece mais próximo de uma imagem contemporânea, pós-moderna, antenada com a alta modernidade, e com o consumo cultural mais sofisticado e diferenciado. `Mas que nada`, um lema como esse, aparentemente `tão legal`, não passa de mais um recurso de efeito, no `museu das grandes novidades` carnavalescas. O Multiculturalismo é a própria expressão ideológica dominante, de um carnaval de segregações e de segmentações de mercado. Adequa-se muito bem as necessidades do mercado consumidor da folia (alegria pré-programa, com local e hora marcada para começar e terminar). 
Tanto no contexto maranhense, quanto no pernambucano (assim como de outras latitudes e regiões) percebemos que aquela forma de `brincadeira` popular, em que circulava os dons e as dádivas, de uma alegria e folia territorializada, já não existe mais: tudo agora é lazer empacotado, agenciado (desterritorializado). No momento em que percebemos tanta fixação em cenas pré-programadas, patrimonializadas, produzidas por uma engenharia cultural sofisticada, em busca da satisfação das demandas do mercado, podemos arriscar decifrar o código subjacente: é a própria `alegria`, a própria `felicidade` que se esvaiu; liquefez-se. Aquela `alegria`, ou `felicidade`, supostamente autênticas, vinculadas as cenas do passado, do antigo, dos velhos carnavais e etc., tenta-se vender, e oferecer como produto ao mercado de consumo da felicidade somática ansiosa e eufórica: como se fosse uma pílula de alegria pronta, encapsulada (garantida pelo signo da tradição). Aquela capa de alegria e felicidade perdida, pretende-se encontrar no passado autêntico, multicultural, condicionado, segmentado, localizado, pseudo-territorializado... 
Mas é fato que tanto a `felicidade` e a `alegria` do passado, quanto a mercadoria `alegria`e `felicidade` do presente não têm autenticidade alguma; assim como é ingênuo e ilusório considerar essas produções fetichistas como produções simbólicas, ou produções artísticas e criativas... Esses narcóticos eventuais, de transe coletivo, afogado em cerveja e outras drogas mais, não podem ser considerados produção cultural digna de uma política cultural de Estado. Cidades e regiões inteiras que não possuem corpo de balé, orquestra sinfônica, grupos de teatro ativos, escolas de circo, de cinema, de pintura, de arte dramática, etc., não pode considerar `carnaval` como a `Cultura`. As formas de produzir carnaval variam de cultura para cultura, de sociedade para sociedade, mas francamente, o fenômeno cultural é muito mais amplo, complexo e profundo. Engana-se populações inteiras (o que favorece muito as empresas de venda de bebidas) considerar e enquadrar esse tipo de carnaval, na categoria `Cultura`, ou como objeto de `política cultural` (com isenção de impostos pela Lei de Incentivo à Cultura). Esse carnaval é negócio, é business, é empreendimento, é consumo como prática cultural... É preciso fazer as devidas distinções, e perceber os alcances de políticas culturais realmente comprometidas com a cidadania cultural, e com os direitos culturais...

Ao dia das Mulheres na sua luta contra um mundo ainda estupidamente machista!

3 comentários:

Adriana Cajado Costa disse...

Os imperativos de gozo nunca estiveram tão presentes e mercantilizados. Não há mais possibilidade de subverter. Tudo pode! Tudo deve poder! Blocos de rua super lotados, pessoas em puro sufoco, excesso de bebida, de sexo, de alegria... Duas imagens são inquietantes: 1. O folião gasta uma pequena fortuna para desfilar na Sapucaí, ele tem 15 minutos para atravessar a avenida e por conta do tempo cronometrado vem alguém da Escola de Samba, aos berros, lhe empurra e grita em seus ouvidos "corre!"; 2. Em Salvador, do alto do Trio Elétrico uma cantora de voz afinada e corpo perfeito ordena "não vou permitir ninguém parado, não vou aceitar ninguém calado, alegria!". Após o carnaval, voltam às manchetes dos jornais as palavras: depressão, obesidade, síndrome do pânico, problemas na criação dos filhos, como comer, como amar, como se portar numa entrevista, a excassez de mão de obra especializada... Falta de criatividade... Será que foi consumida no carnaval?

mucury cultural disse...

Olá Correa,

Muito bom seu texto.
E concordo e discordo.
Você mesmo disse sobre a suposta autenticidade, que somada ao anacronismo nos deixa perdidos entre a ciência, a cultura, o carnaval, o senso comum e o povo.
A hipermoderinidade? Sei lá.
Só sei que o Brasil é o país do carnaval, querendo nós, ou não.
Ah, seu post está em nosso blog também!
Abraços.

Bruno Bento.

Gabriel Kafure disse...

Gostei do post. É uma discussão instigante. Vejo que ainda é possivel encontrar originalidade, mas é que nem um garimpo, tanto em pernambuco, como no maranhão e como em outros estados tb.
Esse post pra mim teve bastante a ver com este
http://revistazena.com.br/um-pouco-de-tudo/
De um camarada pernambucano, ai, vamos entrando numa dialetica maior ainda.
Eu mesmo, atualmente moro no maranhão, me considero pernambucano, mas vim apssar o carnaval em são paulo... coisas da vida, rs.