19 março 2011

A “Perda de Fibra”


"Ninguém [...] que tenha observado, em certos debates pós-modernistas sobre gênero e neocolonialismo, os efeitos lamentáveis de sua ignorância em relação à estrutura de classes e às condições materiais, poderia subestimar, nem por um momento, as perdas políticas desastrosas aqui em jogo. A política do ocidente está transbordando de radicais cuja ignorância das tradições socialistas, sobretudo das próprias, decerto deriva, entre outras coisas, da amnésia pós-modernista. E estamos falando do maior movimento de reforma que a história já testemunhou. Agora nos vemos confrontados com a situação de certa forma absurda de uma esquerda cultural que mantém um silêncio indiferente ou embaraçado diante daquele poder que é a cor invisível da vida cotidiana em si, que determina nossa existência – às vezes literalmente – em quase todos os cantos da terra, que decide em grande parte o destino das nações e os conflitos cruentos entre elas. É como se pudéssemos questionar quase todas as outras formas de sistema opressor – estado, mídia, patriarcado, racismo, neocolonialismo – menos a que com tanta freqüência define a agenda a longo prazo para todas essas questões, ou, no mínimo, está envolvida com elas até a alma." 

"[…] O poder do capital mostra-se agora de uma familiaridade tão desencorajante, de uma onipotência e onipresença tão elevadas, que mesmo grandes setores da esquerda lograram naturalizá-lo, aceitando-o como uma estrutura de tal modo inexorável, que é como se eles mal tivessem peito para tocar no assunto." 

Terry Eagleton, 1998, p.31.

EAGLETON, T. (1998). As Ilusões do Pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.


* * * 
PÓS-MODERNISMO


"Numa tentativa sumária de sintetizar essa coisa pretensamente indecifrável chamada `pós-modernidade`, o inglês Terry Eagleton, nos delineia uma definição por hora suficiente a nossos propósitos: 
Pós-modernidade é uma linha de pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, 
razão, identidade e objetividade, a idéia de progresso ou emancipação universal, os sistemas 
únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação. Contrariando 
essas normas do iluminismo, vê o mundo como contingente, gratuito, diverso, instável, 
imprevisível, um conjunto de culturas ou interpretações desunificadas gerando um certo 
grau de ceticismo em relação à objetividade da verdade, da história e das normas, em
relação às idiossincrasias e a coerência de identidades."

(Eagleton, 1998: p.7).

"O pós-modernismo opera uma estetização da vida, ao obscurecer as fronteiras entre arte e experiência cotidiana. Quando afirma a morte do sujeito moderno e infirma o indivíduo esquizofrênico, fragmentário, descentrado, etc., o pensamento pós-moderno 
rompe com qualquer possibilidade de se falar em alienação, uma vez que não há um eu 
coerente do qual se alienar. E é somente com uma concepção de indivíduo minimamente 
centrado que se pode vislumbrar uma crítica ao presente e a projeção de um futuro melhor, 
portanto, na lógica pós-moderna, qualquer projeto que se estende no tempo é a priori 
impossibilitado, numa espécie de rendição ao 'presentismo eterno'."


David Harvey:

"O caráter imediato dos eventos, o sensacionalismo do espetáculo (político, científico, militar, bem como de diversão) se tornam a matéria de que a consciência é forjada. [...] Essa ruptura da ordem temporal de coisas também origina um peculiar tratamento do passado. 
Rejeitando a idéia de progresso, o pós-modernismo abandona todo sentido de continuidade e memória histórica, enquanto desenvolve uma incrível capacidade de pilhar a história e absorver tudo o que nela classifica como aspecto do presente." 

(Harvey, 1998, p.58).

HARVEY, D. (1998). Condição Pós-Moderna. São Paulo: Edições Loyola.

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