29 julho 2011

Futebol e Museus: como entrar para a História!

Na Edição do Jornal Nacional da Globo, do dia 28 de Julho encontramos um conteúdo muito interessante para nós refletirmos aqui no Blog. Trata-se de um tema muito recorrente nas nossas análises, qual seja, a relação da sociedade com a memória e com o acontecimento presente. Nesse caso em destaque, observamos de perto, - como se possuíssemos uma 'lente de aumento' sociológica-, o entrelaçamento de elementos muito fortes da sociedade brasileira atual: mídia, futebol e museus. Vamos descrever a cena televisa jornalística, quando o repórter 'global' de jornalismo esportivo Tino Marcos, nos seus costumeiros textos de prosa exortatória, comenta a partida de futebol, no Brasileirão, entre Santos e Flamengo, transcorrida na Vila Belmiro. Peleja exaltada como uma partida extraordinária, com a presença de dois dos maiores craques e heróis do esporte nacional atual.

A celebração do melhor jogo do ano no Brasil

A abertura da sessão esportiva do Jornal televiso conta na bancada com os apresentadores Ana Paula e Heraldo Pereira:
Ana Paula: - A rodada de ontem do Campeonato Brasileiro foi de tirar o fôlego; foram vinte cinco gols em sete jogos!
Heraldo: - Mas um deles vai ficar na memória de muita gente; porque mostrou a grandiosidade do futebol brasileiro, no encontro de dois astros de gerações diferentes. Quem conta essa história pra gente é Tino Marcos...
Tino Marcos: - Aeroporto Santos Dummont centro do Rio de Janeiro... epicentro de uma torcida (cantando o Hino do Clube)... Não é a comemoração de um título, mas a celebração do melhor jogo do ano no Brasil.
[Focaliza as costas dos torcedores, com o nome de Ronaldinho estampado nas camisas] – Ronaldinho às costas (com seu nome estampado nas camisas dos torcedores na multidão); e Ronaldinho (real) logo ali a frente. E pra andar, como se faz? [Vira o microfone para Ronaldinho, e pergunta ao craque]: - É um desconforto legal, esse?
Robaldinho: - Ótimo!
Tino Marcos: - Era um jogo só; e coube tudo nele! Um gol perdido, assim, de Deivid [cena do gol perdido, ao fundo da cena]. Já era uma boa história! Um pênalti perdido, assim; tendo feito Elano o que fez, duas semanas atrás, na Copa América! [Cena do pênalti perdido] Já valeria a história de um jogo... Pois Borges, do Santos, fez dois gols! Jogo normal; protagonista... Mas, não, porque Neymar teve atuação antológica! E ele nem foi “o cara”! Ronaldinho conseguiu ser ainda mais herói! Santos e Flamengo, um acervo para sempre! Um museu erguido em noventa minutos! Um “museu de grandes novidades” [citando Cazuza]! Ou você já viu um drible assim [cenas de vários dribles dos jogadores].
Destaque para a trilha sonora espetacularizante, dando um clima de heroísmo e dramaticidade heróica retumbante!
Em seguida, Tino Marcos faz um paralelo alegórico entre as partes do Museu, representadas na tela por uma planta baixa, e as cenas da partida; dividindo o Museu Imaginário e o Campo de Futebol por sessões.

MUSEU DO FUTEBOL:

1. Sala do Imponderável [fala do locutor do jogo: - Teve de tudo no primeiro tempo]; 
2. Sala da Lógica Perdida [Comentário de Tino Marcos: - Onde um placar de 3x0 para Santos, construído em 25 minutos, com um empate ainda no primeiro tempo; e o Neymar, fazendo o quarto no início do segundo tempo: 4x3. E O Ronaldinho marcando o gol da vitória; num placar “das antigas”, 5x4, um Museu Eletrizante! Chegamos, então, no espaço mais concorrido; 
3. Sala dos Craques. Neymar, 19 anos, parecia que ele era o adulto jogando contra crianças! Neymar com a bola dominada, era o Santos dominando! Vai começar [imagens digitalizadas do gol “antológico” de Neymar] uma arrancada de 59 metros. Sabe quem é Ronaldo Angelim [zagueiro do Flamengo]? Aquele zagueiro que levou o drible mais desconcertante da noite. Drible e gol!... Ronaldinho, 31 anos, parecia o menino de anos atrás. A melhor atuação dele, em anos e anos! Um chute sem força [cena da batida de falta]; um peteleco genial na direção reta do gol. Era esse o ponto de vista de Ronaldinho [cena digitalizada]. É simples, barreiras costumam pular no momento da falta, então, gooool!
Tino Marcos: - Museus são espaços de prazer, de descobertas, de gosto pelo saber. E é por causa desse saber, tão genuinamente brasileiro, que já se fala em ampliação; quem sabe um acervo de jogadas desse nível, no futuro Salão Nobre da Copa do Mundo de 2014! Desde já a bola se oferece como guia!    


MUSEU DE TUDO


Vivemos numa época interessante, sem sombra de dúvida! Sob o impacto das forças de transformação aceleradas, de fundo tecno-econômico, temos tido reações desconcertantes; respondendo desajeitadamente a estes vertiginosos abalos. 
No que tange a nossa relação com a memória, elegemos os museus como o lugares e espaços sociais institucionais privilegiados para a guardar, conservar e preservar tudo, vestígios do 'Império do Efêmero'. Pois, tudo está indo para o museu, como já nos indicava João Cabral de Melo Neto, no seu livro de poesias Museu de Tudo (1976)!

O Museu de Tudo


Este museu de tudo é museu
Como qualquer outro reunido;
Como museu, tanto pode ser
Caixão de lixo ou arquivo.

Assim, não chega ao vertebrado
Que deve entranhar qualquer livro:
É depósito do que aí está,
Se fez sem risca ou risco.

O poeta soube colocar o anúncio de nossa angústia com o presente de modo sintético e preciso! Bravo! 
Na reportagem e crônica televisa colocada em destaque aqui, vemos a força que tem esse processo de museologização vertiginoso que nos assola: nossa museomania.
Vamos 'entrar para a História; vamos 'entrar para o Museu'! 
É o nosso lema!


O Futebol Brasileiro Evocado na Europa


A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e embora seja um utensílio 
caseiro e que se usa sem risco,
não é um utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bico,
e que, como bico, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.


João Cabral de Melo Neto
Museu de Tudo (1976)

1 comentário:

reflexão disse...

O futebol é um esporta que atrai multidãos. Muitos até dizem que a futebol é a pátria de chuteiras. Também hoje em dia o futebol dá muito lucro para muita gente. E também fertiliza o imaginário do povo. Seria muito bom que o povo tivesse outras influências. Não só do futebol.