06 agosto 2011

FIXAÇÃO IDENTITÁRIA, TERRITORIALIDADE E EXCESSOS DA PATRIMONIALIZAÇÃO


V Jornada Internacional de Políticas Públicas
Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas (PPGPP)
Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
São Luís, Maranhão – 23 a 26 de Agosto de 2011

Tema:
“Estado, Desenvolvimento e Crise do Capital”


Eixo Temático:
Estado, Cultura e Identidade
MESA REDONDA
Título:


FIXAÇÃO IDENTITÁRIA, TERRITORIALIDADE E EXCESSOS DA PATRIMONIALIZAÇÃO: riscos para a criatividade e o imaginário artístico e cultural contemporâneo.

Palestrantes:
Alexandre Fernandes Corrêa (DESOC/PGCult/UFMA)
Adriana Cajado Costa (Doutoranda Psicanálise/UERJ)
César Chaves (Mestrando PGCult/UFMA)

Justificativa:

A Constituição Federal do Brasil de 1988 incorpora a ‘cidadania cultural’ aos direitos civis. Os direitos culturais passam a ser invocados por diversos grupos sociais que a partir de sua consagração jurídica, passam a incluí-los com mais força na pauta de suas reivindicações políticas. Depois de um período de refluxo nas políticas de conservação, preservação e promoção do patrimônio cultural, em 2001 inaugura-se uma nova fase com o Decreto-Lei 3.551, que institui o programa nacional de registro do patrimônio cultural imaterial na sociedade brasileira. Com a intensificação dos fluxos de globalização tecno-econômica e mundialização cultural, desde os anos 1990, observamos os movimentos sociais buscarem nos instrumentos legais e institucionais de patrimonialização, meios de salvaguarda de possíveis perdas identitárias e territoriais. Nesse cenário testemunhamos uma crescente demanda por uma institucionalização do processo de gestão do teatro das memórias sociais, sem, todavia, ocorrer uma democratização efetiva do espaço social da memória e do patrimônio. Constatamos que se mantém nesse espaço social o domínio de grupos oligárquicos e conservadores tradicionalistas e folcloristas. Concomitante a isso se observa também uma fixação obsessiva e recalcitrante em conceitos e noções do século XIX – tais como etnia, raça, classe, gênero etc. – configurando um sistema de referência identitária anacrônica e paradoxal. Considerando estes aspectos, perguntamos: quais os riscos dos excessos da gestão do patrimônio cultural e da memória social sobre a arte e o imaginário artístico? Como garantir espaço para a liberdade e a criatividade da arte, num campo/espaço social cada vez mais dominado por conceitos e noções antiquados e acríticos? Parece que uma resposta política contundente a esse quadro resistente a mudanças, seja a promoção de políticas de ação cultural que invoquem a riqueza das heranças culturais e simbólicas; na direção de uma polifonia cultural efetiva e não retórica: seja ameríndia, latina, africana ou caribenha. Desse modo, talvez, encontremos uma forma de garantir uma gestão política realmente democrática do teatro das memórias sociais e naturais no país.   


Resumo das Palestras:

CONFIGURAÇÕES PSICOSSOCIAIS DO ‘FUTURO DO PASSADO’ NA CENA CULTURAL ATUAL.
Autor: Alexandre Fernandes Corrêa (PGCult/Crisol/UFMA): alex@ufma.br

Quais os riscos dos excessos da gestão do patrimônio cultural e da memória social sobre a arte e o imaginário artístico? A criatividade constitui um processo dialético que enlaça a dimensão simbólica e imaginária do sujeito no laço social. A memória não se configura apenas de traços mnêmicos do passado, mas interfere em ato no presente e influi nas identificações e ideais futuros. Criar, inventar é produzir memória nas cenas construídas a partir de um diálogo com a herança recebida. A fixação de identidades e territórios numa gestão política parece limitar o campo criativo produzindo uma repetição do mesmo, réplicas do idêntico. Indaga-se: Como garantir a liberdade e a criatividade da arte, num espaço social cada vez mais dominado por conceitos e noções antiquados e acríticos? De que maneira se pode garantir aos movimentos jovens, como hip-hop, arte de rua e arte popular, que a salvaguarda do passado não signifique uma petrificação do imaginário artístico sob a força dos excessos da patrimonialização vigente?

IDENTIFICAÇÕES CRISTALIZADAS: O RECONHECIMENTO COMO POLÍTICA DE PATRIMONIALIZAÇÃO.
Adriana Cajado Costa (Doutoranda PGPSA/UERJ): adricajado@hotmail.com
                 
Freud e, posteriormente, Lacan, sustentou, durante toda sua obra, a existência de duas demandas primordiais que o sujeito endereçava ao Outro e, por conseguinte, ao laço social: amor e reconhecimento. A constituição do sujeito se alicerça nesses dois fenômenos que produzem um processo de assujeitamento no qual, a partir das releituras de Lacan, pode-se destacar dois véus nesta relação; o vel da alienação – no qual há uma total identificação ao desejo do Outro e assim o desejo do sujeito é o desejo do Outro -  e o vel da separação: operação lógica responsável por uma identificação simbólica que produz uma dialética entre o desejo do sujeito e o desejo do Outro, abrindo espaço para a criação. O reconhecimento é peça chave nesse processo identificatório e constitutivo do sujeito e dos laços social pois sinaliza os significantes valorizados e idealizados que servem de pontos de referencia para o Eu e sua identidade. A questão torna-se ainda mais complexa quando o Estado, por meio de políticas públicas, mapeia o campo do que será reconhecido e patrimonializado encenando identificações que se cristalizam em significantes fixos, auto-excludentes. Assim, ao invés do reconhecimento favorecer a criatividade de uma identificação simbólica dialetizável que permita a criação e por uma separação menos assujeitada, o reconhecimento fixado na patrimonialização excessiva reafirma o véu da alienação e transforma-se em poder de assujeitamento.

A identidade cultural forjada a partir de processos discursivos e relações de poder no âmbito do patrimônio cultural.
César Roberto Castro Chaves (Mestrando PGCult/UFMA): rasec595@yahoo.com.br

O cotidiano de um ambiente tido como patrimônio histórico e cultural, principalmente quando neste reside comunidades há várias gerações e consideradas “tradicionais”, não pode ser visto pelas políticas culturais de preservação e conservação como um mero espaço geográfico patrimonializado, pois consiste antes de tudo, em um lugar de sociabilidades. Devendo, portanto, ser visto enquanto lugar de complexidades sociais, em um território de experiências humanas extremamente heterogêneas, compondo um amálgama cultural imerso em relações sociais e de poder, onde tais relações se materializam por meio de discursos e práticas carregados de sentidos ideológicos que promovem um verdadeiro enquadramento simbólico do que é considerado patrimônio. Indagam-se quais práticas e discursos dominantes ditam os usos que se devem fazer do patrimônio, bem como quem pode utilizá-lo - muitas vezes a um elevado custo financeiro - dentro de um contexto de mundialização da cultura? Nos espaços geográficos e do turismo, ocorrem verdadeiros enquadramentos reflexivos da identidade e da memória, onde estes espaços locais buscam se firmar na aldeia global do capitalismo, atribuindo sentidos e valores, inclusive de mercado, à cultura e ao patrimônio, justificando assim ações e políticas culturais do patrimônio que, por vezes, silenciam vozes de sujeitos socialmente marcados pela ignorância, responsabilizando-os pelos fracassos do processo de preservação histórica no Brasil. Nesse contexto, justifica-se, inclusive, ações educativas que visam “alfabetizar culturalmente” estes sujeitos para, a partir de então, se criar uma identidade cultural brasileira por meio da reflexividade, em torno do patrimônio cultural nacional.


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Material para o Debate: Reportagem sobre o Documentário Caminhos da Mantiqueira



Documentário busca a identidade da Serra da Mantiqueira


Por Amanda Nero | 04/08/2011 - Atualizada às 18:49


Os montanhistas Silvério Nery (à esq.) e Eliseu Frechou são personagens do documentário
Os montanhistas Silvério Nery (à esq.) e Eliseu Frechou são personagens do documentário
Foto: Divulgação
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A busca de uma identidade geopolítica e cultural da região da Serra da Mantiqueira. Este é o foco do documentário Caminhos da Mantiqueira, segundo o próprio diretor Galileu Garcia Júnior. Durante 35 dias, uma equipe de 10 pessoas da produtora Mistura Fina percorreu 40 cidades que ficam na cadeia montanhosa de 500 quilômetros de extensão, no entroncamento dos estados de Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. 
Neste período (entre julho e agosto de 2010), eles conversaram com tropeiros, violeiros, agricultores, além de especialistas sobre a região, como ambientalistas e historiadores. “É um documentário com ritmo, que aborda diversos temas da região, como água, pinhão, araucária e lendas”, explicou ao Webventure o cineasta. 
Com o filme, de 79 minutos, Galileu deseja delimitar um Estado imaginário da Mantiqueira. “Queremos criar a consciência do cidadão mantiqueirense. Criar uma identidade, que faça com que uma pessoa que seja paulista, mineira ou carioca também se considere mantiqueirense”, explica Galileu. 
A pré-estreia vai acontecer para convidados no próximo dia 6 de setembro. Depois, o filme será lançado em DVD e terá exibição itinerante em escolas e centros culturais dos municípios serranos. A seguir, Galileu conta causos e percalços da produção. 




Como surgiu a ideia do documentário?
Há 10 anos comprei um sítio em São Bento do Sapucaí (SP). Em momentos de fuga, eu fazia viagens de dois ou três dias pela serra, sempre fotografando. A intenção inicial era registrar a natureza, mas ao longo do tempo, me encantei com as pessoas e descobri uma grande identidade na região, mesmo sendo a área fragmentada em três estados. Comecei então a buscar essas pessoas que moravam lá e a fotografá-las. Em 2007, fiz duas exposições com as imagens, uma em São Bento e outra em Gonçalves (MG), já com o título Caminhos da Mantiqueira. Quando me dei conta, eu já conhecia as grandes figuras da serra: montanhistas, geólogos, tropeiros, violeiros. E tudo isso acabou virando o projeto do livro e do filme.


Qual é a importância dessa região?
É uma região montanhosa preservada, uma fábrica de água e de ar, além de ser propícia para o esporte. Ela é extremamente importante para o futuro de nosso país. Quase metade da água do Rio está na Mantiqueira. Um terço da água de Minas também vem de lá.


Durante as gravações, houve algum fato inusitado que modificou o roteiro planejado?
O que acabou crescendo e ganhando espaço no documentário foram as lendas. A lenda do lobisomem, do homem de corpo seco e da mãe-de-ouro (uma luz que sairia de uma montanha e iria para outra). Ao longo da viagem, descobrimos que as lendas existem da mesma forma em várias cidades, mesmo que uma esteja a quilômetros de distância da outra. 


Vocês passaram por algum perrengue durante as gravações?
Sim. Quando fomos ao Parque Nacional do Itatiaia, no Rio de Janeiro, para entrevistar dois biólogos, nosso acesso ao lugar foi negado por causa de um grande incêndio que estava acontecendo. Nós queríamos entrar de qualquer jeito, porque eu não podia perder o meu cronograma. Foi uma negociação muito difícil, nervosa e tensa com os administradores. No fim conseguimos, mas acabamos filmando com helicópteros do exército, bombeiros e caminhões tanque passando. Estava tudo pegando fogo. Enormes helicópteros jogavam água e mais de 200 bombeiros e soldados usavam aqueles abafadores. Filmamos no meio desse clima. Também queríamos ir ao cume das Agulhas Negras, mas nos impediram por motivos de segurança.


Qual personagem mais te marcou?
O Manuel Tropeiro, o senhor das lendas – ele conta no filme que viu o lobisomem e a mãe-de-ouro. Ele se parece com uma pessoa do século passado, que está perdido neste tempo. Sua casa fica no meio do nada. Para chegar lá, é uma hora e meia de carro. Ele é uma pessoa muito especial.


O que mais te impressionou durante a produção?
Várias coisas, mas o que mais me impressionou foi a beleza dos lugares por onde passamos. São indescritíveis em termo de visual. Momentos como o nascer do sol e o final de tarde são coisas que eu nunca vou esquecer. Outro momento foi quando subimos o Pico dos Marins com o Hideki Maeda e o geógrafo Lorenzo Bagini. O Maeda, um montanhista bem velhinho, passou mal na subida por causa da ansiedade e acabou não fazendo conosco todo o caminho até ao cume.

Fonte: http://www.webventure.com.br/home/n/documentario-busca-a-identidade-da-serra-da-mantiqueira/30540

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