10 agosto 2011

OS DESTINOS DA UNIVERSIDADE: Conhecimento e Cartório de Diplomas...

"Es detestable esa avaricia espiritual que tienen los que, 
sabiendo algo, no procuran la transmisión de esos conocimientos". 

Miguel de Unamuno

ESTAMOS vinculados a instituição universitária há muitas décadas. A Universidade sempre contou com nossa presença efetiva desde os anos de 1980; nos tempos de estudante secundarista e, em seguida, como calouro, no Rio de Janeiro. Já no início dos anos noventa, começamos a trabalhar como docente universitário; após ter lecionado no MOBRAL e no antigo Curso de Magistério. Com intuito de aprimorar nossos conhecimentos e realizar trabalho mais adequado as exigências universitárias, realizamos curso de mestrado, doutorado e dois estágios de pós-doutorado... Transcorridos todos esses anos, quando fazemos uma avaliação sobre as nossas esperanças iniciais e a realidade com a qual nos deparamos no momento, nos espantamos com as dificuldades imensas que presentemente testemunhamos. E esse breve texto reflete nosso inusitado espanto... 
O CRISOL - Grupo de Pesquisas e Estudos Culturais, criado em 2001, com 10 anos de existência e certificado pelo Diretório de Grupos de Pesquisas do CNPq, vem enfrentando adversidades inimagináveis, no convívio com a Instituição Universitária e com diferentes instâncias do movimento de docentes e pesquisadores, em seus diversos níveis de organização. Desses enfrentamentos, constatamos que a Universidade e a Pesquisa (assim como a Extensão) em nosso país, contínua dominada por mentalidades autoritárias e conservadoras. É lamentável constatar que após a destituição da Ditadura e do Arbítrio Militar, continua a vicejar na vida universitária, docentes e letrados diplomados reproduzindo o jogo fascista e obscurantista da negação do conhecimento e da criação de novas ideias; tudo isso sob o império despótico das alianças e relações pessoais de base afetivas. Herdamos, dessa cultura universitária autoritária, obstáculos políticos e epistemológicos quase intransponíveis, barreiras absurdas que se constituíram e se fortalecem, tornando o resgate de nossas melhores expectativas - daqueles dias de iniciação na vida universitária - projeto de recuperação praticamente inalcançável, quase utópico. Lamentamos profundamente os fatos recentes ocorridos com nosso Grupo de Pesquisa, que vem sofrendo boicotes e limitações de atuação na sociedade local e na própria comunidade universitária - que somados aos antigos sinais iniciais de dificuldades ideológicas e intelectuais - abriram de modo definitivo a frente do confronto direto, cavando assim um fosso profundo com as gestões autoritárias e anti-democráticas vigentes. 
A natureza de nossa discordância é Política, contudo, tem sido transformada num mero caso idiossincrático de embate pessoal; tornando-se mais uma fofoca anedótica para a vasta coleção de casos hilários. Vivemos num ambiente em que a crítica é tomada como insulto pessoal a indivíduos e não um exercício científico e cidadão. A retórica universitária se funda no proselitismo de ser uma instituição que promove e cultiva o 'espírito crítico': ledo engano. O espírito crítico não pode ser cultivado num ambiente em que a moeda de troca mais valiosa são as relações pessoais e afetivas. Como escreveu Jessé Souza, é fato a "existência, apenas aparentemente paradoxal, de um mundo acadêmico onde, ainda que não falte inteligência e talentos individuais, inexiste, por outro lado, qualquer tradição efetiva de crítica e debate. Como não existe entre nós uma verdadeira institucionalização da ideia guia, que legitima a esfera científica como esfera autônoma de valor, qual seja, a procura da 'verdade' como valor impessoal e acima de qualquer interesse individual, reproduzimos consensos científicos anacrônicos de 80 anos atrás". Esse é o ponto fulcral de nossa perplexidade: a 'reprodução de consensos'... baseados nas relações pessoais e afetivas.
A Universidade, e diferentes Grupos de Poder Universitário, têm se tornado insensível aos nossos mais diversos reclames e apelos, já expressos e manifestados de diferentes maneiras, mantendo-se cercada, e encastelada, em subterfúgios, e escusas, nada polidos e nada esclarecidos. 
Esse processo culmina com a apresentação de posições arbitrárias, cerceadoras, que causam nossa indignação. Nós do CRISOL - Grupo de Pesquisas e Estudos Culturais, nesse instante, expressamos uma vez mais nossa perplexidade com o nível de mediocridade e autoritarismo que encontramos no ambiente universitário hodiernamente. O silêncio de colegas e companheiros, de longa data, que consideram, erroneamente, estes enfrentamentos como expressão de vaidade e narcisismo, não percebem que fazem o jogo dos celerados: é a armadilha do psicologismo e do sociologismo rasteiro. Não se trata de uma 'fogueira de vaidades', se trata de arbítrio, cerceamento da expressão do pensamento e do trabalho alheio; com requintes cínicos e perversos. No mínimo tais atitudes merecem a alcunha de 'assédio moral'; mas, nossa resposta a isso será encaminhada no momento certo. 
Esse quadro é profundamente desalentador! Depois de mais de duas décadas trabalhando sob a força dos ideais de esclarecimento pela ação universitária, encontrar agora na própria Universidade a resistência mais reacionária e fascista - expressa no comportamento organizado e deliberado de verdadeiras máfias, gangues e quadrilhas estabelecidas na instituição - é um duro golpe nas nossas mais sinceras esperanças. Pode-se considerar uma avaliação tardia, ingênua e juvenil de um docente e pesquisador desavisado ou desatento. Contudo, essa experiência revela que ao priorizar a pesquisa e os estudos avançados, e evitando privilegiar neuroticamente as relações pessoais e afetivas - valorizando a dimensão racional e científica - o intelectual independente no Brasil acaba por se tornar um estranho, um outsider, um elemento perigoso na reprodução do status quo institucional. 
Por fim, encerrando mais um capítulo de nossos desabafos, um aviso aos jovens pesquisadores e docentes: - CUIDADO! Observem, pesquisem, investiguem, avaliem a própria instituição em que trabalham. Procurem conhecer a história de seu Departamento, Instituto, Curso, etc. Pois, será através dessa pesquisa, na própria instituição, que você terá condições de realizar seu trabalho, ou não, na Universidade em que atua.
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Sugestão de Textos Reflexivos sobre a Ausência do Pensamento Crítico entre Nós.



O PATRIMONIALISMO OU A DOENÇA INFANTIL DA SOCIOLOGIA BRASILEIRA: Uma Crítica à Cabeça Conservadora do Brasileiro Alberto.
Jessé de Souza.
http://crisol-gpec.com.br/site/publicacoes/29/220/o-patrimonialismo-ou-a-doenca-infantil-da-sociologia-brasileira.html

O livro de Maurício Tragtenberg 'Delinquência Acadêmica'.
Texto Completo:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/almanaque/entrevista_folhetim_06ago1978.htm

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A Universidade sequestrou o Conhecimento, difundindo a ideia de que é nela que se produz o novo. Ao contrário, a Universidade tem se tornado o maior obstáculo para a produção do novo conhecimento; obstáculo político e epistemológico. Teremos que refundar a ideia de instituição do Conhecimento, pois nas Universidades domina o pensamento hegemônico, que luta contra o novo.
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Observar-se-á, com grande frequência, que a Universidade não é propriamente o lugar onde encontraríamos a solução de muitos dos nossos problemas; ao contrário, a Universidade, hoje, tornou-se parte dos problemas que temos que enfrentar ao percorrer a travessia do 'conhecimento' à 'sabedoria'...

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