16 agosto 2011

PRIMEIRO FAUSTO - O HORROR DE CONHECER


PRIMEIRO FAUSTO
de Fernando Pessoa


Primeiro Tema
O Mistério do Mundo



Segundo Tema
O HORROR DE CONHECER


I
O inexplicável horror
De saber que esta vida é verdadeira,
Que é uma coisa real, que é [como um] ser
Em todo o seu mistério
Realmente real.


II
Do horror do mistério são, talvez guerreiros
Símbolos esses horrendos
Gorgona e Demogorgon fabulosos,
Fatais um pelo aspecto o outro no nome.
Neles se vê a ávida ansiedade
De ter, em concepção que torturasse
De terror, isso que de vago e estranho,
Atravessando como um arrepio
Do pensamento a solidão, integra
Em luz parcial [...] a negra lucidez
Do mistério supremo. É conhecer,
O erguer desses ídolos de horror,
A existência daquilo que, pensando
A fundo, redemoinha o pensamento
Por loucos vãos [recantos], delírios da loucura,
Despenhadeiros [íngremes], confusos
Torturamentos, e o que mais de angústia
E pavor não se exprime, sem que falhe
Na própria concepção o conceber.


III
Por que pois buscar
Sistemas vãos de vãs filosofias,
Religiões, seitas, [voz de pensadores],
Se o erro é condição da nossa vida,
A única certeza da existência?
Assim cheguei a isto: tudo é erro,
Da verdade há apenas uma idéia
A qual não corresponde realidade.
Crer é morrer; pensar é duvidar;
A crença é o sono e o sonho do intelecto
Cansado, exausto, que a sonhar obtém
Efeitos lúcidos do engano fácil
Que antepôs a si mesmo, mais sentido,
Mais [visto] que o usual do seu pensar.
A fé é isto: o pensamento
A querer enganar-se-eternamente
Fraco no engano, [e assim] no desengano;
Quer na ilusão, quer na desilusão.


IV
Quanto mais fundamente penso, mais
Profundamente me descompreendo.
O saber é a inconsciência de ignorar...


V
Só a inocência e a ignorância são
Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?
Que é ser sem no saber? Ser, como a pedra,
Um lugar, nada mais.


VI
Quando às vezes eu penso em meu futuro
Abre-se de repente [um largo] abismo
Perante o qual me cambaleia o ser.
E ponho abre os olhos as mãos da alma
Para esconder aquilo que não vejo.
— Oh, lúgubres gracejos de expressão!


VII
Às vezes passam
Em mim relâmpagos de pensamento
intuitivo e aprofundador,
Que angustiadamente me revelam
Momentos dum mistério que apavora;
Duvidosos, deslembrados, confrangem-me
De terror, que entontece o pensamento
E vagamente passa, e o meu ser volve
À escuridão e ao menor horror.


VIII
A loucura por que é
Mais que sã a falta dela...
Qual a íntima razão
Que a crença e o sonho sejam necessários
E tudo o mais funesto?...
Ironia suprema do saber:
Só conheço isso que não entendo,
Só entendo o que entender não [posso]!
E eu cambaleio
Pelas vias escuras da loucura
Olhos vagos de susto, pelo [horror]
De haver realidade e de haver ser,
De haver o fato da realidade.
Tremo, e de repente
Uma sombra da noite pavorosa
Inunda-me o gelado pensamento
Vou caindo
Num precipício cujo horror não sei
Nem a mim mesmo [logro] figurar,
Que só calculo quando nele estou.


IX
A sonhar eu venci mundos
Minha vida um sonho foi.
Cerra teus olhos profundos
Para a verdade que dói.
A Ilusão é mãe da vida:
Fui doido, e tudo por Deus.
Só a loucura incompreendida
Vai avante para os céus.


X
Do fundo da inconsciência
Da alma sobriamente louca
Tirei poesia e ciência,
E não pouca
Maravilha do inconsciente!
Em sonho, sonhos criei.
E o mundo atônito sente
Como é belo o que lhe dei.


XI
Só a loucura é que é grande!
E só ela é que é feliz!


XII
Montanhas, solidões [...], desertos todos,
[Inda] que assim eu tenha de morrer
Revelai-me a vossa alma, isso que faz
Que se me gele a mente ao perceber
Que realmente existis e, em verdade,
Que sois fato, existência, coisa, ser.
Desespero ao ouvir-me assim dizer
Isso que n'alma tenho. Sinto-o, sinto-o,
E só falando não me compreendo.
Sentir isto, eis o horror que não tem nome!
Mas senti-lo a sentir, intimamente,
Não com anseios ou suspiros d'alma
Mas com pavor supremo, com o gelado
Inerte horror da desesperação!


XIII
Não tenho, não, já dúvida ou alegria;
Mas nem regresso mais a essa dúvida
Nem a essa alegria regressava,
Se possível me fosse; tenho o orgulho
De ter chegado aqui, onde ninguém,
Nem nas asas do doido pensamento
Nem nas asas da louca fantasia,
Chegou. E aqui me quedo. Consolado
Nesta perene desconsolação.
Esta
Diferença contra a diferença
Entre o vazio cepticismo antigo
Mudo adivinhador, não compreendendo
A força toda do que adivinhou —
Entre isto e o meu pensar. Cheguei aqui.
Nem daqui sair quero, nem queria
Aqui chegar. Mas aqui cheguei e fico.


XIV
Horror supremo! E não poder gritar
A Deus — não há — pedindo alívio!
A alma em mim se ironiza só pensando
Na de pedir ridícula vaidade
Tenho em mim
A Verdade sentida e incompreendida
Mas fechada em si mesma, que não posso
Nem pensá-la. (Senti-la ninguém pode.)
Como eu desejaria bem cerrar
Os olhos — sem morrer, sem descansar,
Não sei como — ao mistério e à verdade
E a mim mesmo — e não deixar de ser.
Morrer talvez, morrer, mas sem na morte
Encontrar o mistério face a face.
Sinto-me alheio pelo pensamento,
Pela compreensão e incompreensão.
Ando como num sonho. Confrangido
Pelo terror da morte inevitável
E pelo mal da vida, que me faz
Sentir, por existir, aquele horror
Atormentado sempre.
Objetos mudos
Que pareceis sorrir-me horridamente
Só com essa existência e estar ali;
Odeio-vos de horror. Eu quereria...
Ah! pudesse eu dize-lo — não o sei —
Nem viver nem morrer [...]
Nem sentir, nem ficar sem sentimento...
Não posso mais, não posso, suportar
Esta tortura intensa, o interregno
Das existências que me cercam... Vamos,
Abramos a janela... Tarde, tarde...
É tarde... E outrora amava a tarde
Com seu silêncio suave e incompleto
Sentido além
Da base consciente do meu ser...
Hoje... não mais, não mais, me voltarão
As inocências e ignorâncias suaves
Que me tornavam a alma transparente.
Nunca mais, nunca mais eu te verei
Como te vi, do sol da tarde, nunca,
Nem tu, monte solene de verdura,
Nem as cores do poente desmaiado
Num respirar silente... E eu não poder
Chorar a vossa perda (que eu perdi-vos)
[Nem mesmo] as lágrimas poder achar —
Por amargas que fossem — com que outrora
Eu me lembrava que vos deixaria.
Oh, minha alma amarga
Cheia de fel, e eu não poder chorar!
Quem sente chora, mas quem pensa não.
Eu, cujo amargor e desventura
Vem de pensar, onde buscarei lágrimas
Se elas para o pensar não foram dadas?
Já nem sequer poder dizer-vos: Vinde,
Lágrimas, vinde! Nem sequer pensar
Que a chorar-vos ainda chegarei!


XV
[Já oiço o impetuoso
Circular ruído de arrastadas folhas,
E, num vago abrir de olhos, na luz sinto
As amarelidões e palidezes
[Mal] o outono sopra [novamente].
Deixá-lo que assim seja — que me importa?
Como um fresco lençol eu quereria
Puxar sombra e silêncio sobre mim
E dormir — ah, dormir! — num deslizar
Suave e brando para a inconsciência,
Num apagar sentido docemente.


XVI
Não sei de que maneira a sucessão
Nos dias tem achado este meu ser
Que a si mesmo se tem [desconhecido].
Não sei que tempo vago atravessei
Nos breves dias de febril ausência
De parte do meu ser. Agora
Não sei o que há em mim, que sobrenada
A ignorada cousa que perdi.
Sinto pavor, mas já não é o mesmo
Pavor, nem é a mesma solidão
Doutrora, a solidão em que me sinto.
Queimei livros, papéis,
Destruí tudo por ficar bem só,
Por que não [sei], não sabê-lo desejo.
Resta-me apenas um desejo ermo
De amar e de sentir [...]
Pesado fardo da grandeza! Amor!
Não a reis nem a príncipes lhes pesa
E o responsável ânimo [...]
Como a mim a existência.
Neste atordoamento nasce em mim
Qualquer coisa de negro e estranho e novo
Que pressinto com medo [...]
Aureolado de mim dentro em minha alma.
Como a linha de negro [no horizonte]
Se ergue em negra nuvem e enegrece
E cresce levantando-se e [escurece]
O firmamento, sinto despontar
Prenúncios de tormenta e confusão
Num silêncio que existe dentro em mim.

XVII
Quanto mais claro
Vejo em mim, mais escuro é o que vejo.
Quanto mais compreendo
Menos me sinto compreendido. Ó horror
paradoxal deste pensar...

XVIII
O decorrer dos dias
E todo o subjetivo e objetivo
Envelhecer de tudo, não me dói
Por sentido, mas sim por ponderado;
Nem ponderado dói, mas apavora.
Tudo tem as [razões] na treva
Do mistério e eu sou disso sempre
Demasiado consciente, muito
Atento ao substancial do existir
E à [consciência] do mistério em tudo.
Cada coisa p'ra mim é porta aberta
Por onde vejo a mesma escuridão;
Quanto mais olho, mais eu compreendo
De quanto é escura aquela escuridão;
E quanto mais o compreendo, mais
Me sinto escuro em o compreender.
Desde que despertei para a consciência
Do abismo da noite que me cerca,
Não mais ri nem chorei, porque passei
Na monstruosidade do sofrer
Muito além da loucura, da que ri
E da que chora monstruosamente
Consciente de tudo e da consciência
Que de tudo horrorosamente tenho.
Todas as máscaras que a alma humana
Para si mesma usa, eu arranquei —
A própria dúvida, trementemente,
Arranquei eu de mim, e inda depois
Outra máscara [...]
Mas o que vi então — essa nudez
Da consciência em mim, como relâmpago
Que tivesse uma voz e uma expressão,
Gelou-me para sempre em outro ser [...]
Só compreendi
Que não há forma de pensar ou crer,
De imaginar, sonhar ou de sentir,
Nem rasgo de [...] loucura
Que ouse pôr a alma humana frente a frente
Com isso que uma vez visto e sentido
Me [mudou], qual ao universo o sol
Falhasse súbito, sem duração
No acabar [...]
Oh horror! Oh horror! Sinto outra vez
Essa frieza precursora n'alma
Da suprema intuição. Ah, não poder
Fora do ser e do sentir esconder-me!
Ah não poder gritar, pedir, deixar-me,
Oh, qualquer coisa mais do que uma luz
Vou sentindo que vai breve raiar...
Morte! Treva! a mim! a mim!


XIX
Ah, não poder dormir (eu não sei como,
verdade o quero) eternamente,
Acabar não comigo, nem com isto,
Mas com tudo — causa, efeito, ser...
Idéias [vãs] que a imaginação
Vazia dum momento
Gera sem ilusão, como criança
Embriagando-se indolentemente
Do cheiro transitório duma flor.


XX
[Ah, qualquer coisa
Ou sono ou sonho, sem doer isole
O meu já isolado coração,
Se as palavras que eu diga nunca podem
Levar aos outros mais do que o sentido
Que essas palavras neles têm, e [existe]
[Por] fora do que digo, oculto nele
Como o esqueleto nesta carne minha,
Invisível estrutura do visível
Diferente essencial...
Cai sobre mim, apagamento meu!
Querer querer, inútil pedra ao mar!
Saco p'ra colher vento, cesto de água,
Caçador só do uivar dós lobos longe...


XXI
Não é o vício
Nem a experiência que desflora a alma,
É só o pensamento. Há inocência
Em Nero mesmo e em Tibério louco
Porque há inconsciência. Só pensar
Desflora até ao íntimo do ser.
Este perpétuo analisar de tudo,
Este buscar de uma nudez suprema
Raciocinada coerentemente
É que tira a inocência verdadeira,
Pela suprema consciência funda
De si, do mundo [...]
Pensar, pensar e não poder viver!
Pensar, sempre pensar, perenemente,
Sem poder ter mão nele. Ah, eu sorrio
Quando [por] vezes noto o inconsciente
Riso vazio do bandido
Rindo-se da inocência! Se ele soubesse
O que é perder a inocência toda ...
O tédio! O tédio, quem me dera tê-lo!


XXII
Tudo o que toma forma ou ilusão
De forma, nas palavras, não consegue
Dar-me sequer, cerrado em mim o olhar
Do [pensamento], a ilusão de ser
Uma expressão disso que não se exprime,
Nem por dizer que não se exprime. Vida
Ideia, Essência, Transcendência, Ser,
Tudo quanto de vago e [sombra]
Possa ocorrer ao sonho de pensar,
Inda que fundamente concebido,
Nem pelo horror desse impossível deixa
Transver sombra ou lembrança do que é.
Com que realidade o mundo é sonho!
Com que ironia mais que tudo amarga
Me não confrange, fria e negramente,
Esta inquieta pretensão a ser!


* * *
Terceiro Tema
A Falência do Prazer e do Amor


Quarto Tema
O Temor da Morte


Dois Diálogos


Fontes:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/pe000005.pdf





http://www.cfh.ufsc.br/~magno/fausto.htm

Sem comentários: