III ENCONTRO DE ESTUDOS CULTURAIS: Cultura e
Subjetividades.
1. Como surgiu a
ideia da realização do Encontro de Estudos Culturais?
Resp: Surgiu em 2006, quando estávamos participando de um Seminário
sobre Patrimônio Culutral (GT/ABA), na cidade de Goiás Velho/GO. Na ocasião
percebemos que os eventos acadêmicos estavam se tornando Mega-eventos de
apresentação de trabalhos individuais ou coletivos, onde o consenso e as ideias
já prontas se revesavam no espaço curto de apresentação de trabalhos à
conta-gotas (10 à 20 min); sem debate e sem troca de experiências
autênticas. Em suma, tornaram-se espaços para performances academistas de
alcance duvidoso, solapando qualquer trabalho de reflexão crítica mais
profunda. Esse cenário nos incomodou profundamente: - depois de anos
participando desses pseudo-eventos 'científicos', analisamos e refletimos sobre
nossa inquietação e procuramos criar um novo espaço para a reflexão livre,
criativa e pulsante. Criamos, então, o I Fórum Temático: Cultura e
Paisagem; em seguida realizamos o segundo Fórum em Belém (2007), e retomamos
- de novo em São Luís - com o nome de Encontro de Estudos Culturais
(2008). Em Recife (2009) ocorreu um novo evento na UFPE, incorporando
o Observatório de Estudos sobre Patrimônio. 2010, uma breve parada, para
realização de um estágio de pós-doutorado na UERJ. Já em 2011 realizamos o II
Encontro, com o tema 'Cultura e Subjetividades', e agora o III Encontro, no
Jornal O Imparcial.
2. Como você avalia
a repercussão que o evento provoca no meio acadêmico e na comunidade?
Resp: Nosso desejo é aproximar os debates e a reflexão da sociedade.
Consideramos que a Universidade tem relutado em transformar-se, continuando a
reproduzir estruturas de poder e saber, arcaicos e conservadores. Acabamos com
a Ditadura e as Universidades continuam com os mesmos currículos
compartimentados e com a mesma estrutura departamental, do Acordo MEC/USAID;
o que é espantoso! As instituições de ensino são muito conservadoras, é
verdade. Nesse sentido, nosso trabalho é crítico e um tanto herético; levamos o
saber para a rua, para lugares não consagrados pelo 'academismo'
dominante. Nos interessa o contágio com as pessoas não especialistas, não
treinadas, não domesticadas pelas instituições de ensino; o que é cada vez mais
raro. Assim, nos aproximamos dos órgãos de comunicação, dos centros culturais,
dos grupos de pesquisa, buscando novas formas de expressão do pensamento e
novas formas de produção e difusão do conhecimento. Portanto, ainda estamos
avaliando a repercussão desse trabalho, que ainda causa algum estranhamento e
desconfiança, já que provoca mudanças nos paradigmas cognitivos
dominantes. As universidades e instituições de ensino, sequestraram a
ideia do conhecimento e do saber, e com a adesão dos setores mais
conservadores, se tornaram agências de reprodução das ideias adequadas ao
mercado, e a reprodução do capital simbólico dominante. Daí tanto conformismo,
e tanta domesticação do pensamento: - estamos todos pensando da mesma
maneira! Estas instituições tornaram-se 'cartórios' de diplomas
e certificados, e nosso trabalho hoje vai na direção de buscar recriar
esse espaço social do conhecimento, do saber e da transmissão do legado
científico. Nosso evento pretende provocar esse debate, e propor uma reflexão
aberta sobre novos princípios de transmissão dos saberes e da produção do
conhecimento na atualidade. Tais ideias explicam as homenagens que fazemos a
Maurício Tragtemberg e a Lygia Clark.
3. Na programação,
percebe-se a diversidade temática. Como são escolhidos os temas oferecidos?
Resp: Consideramos cada vez temeroso o predomínio da fragmentação do
conhecimento em especialidades infinitas e nunca conectadas. A compartimentação
do saber em escaninhos departamentais incomunicáveis, tem sido responsável por
essa sensação difusa de falência do pensar. Optamos por escolher temas
transversais e convidar profissionais, professores e pesquisadores de áreas
diferentes, para falar do mesmo problema. Já é o segundo encontro em que
aproximamos os conceitos de Cultura e Subjetividades: temos linhas de pesquisas
sobre essa interface, na atualidade. Todavia, é certo que vislumbramos a
possibilidade de uma unificação do campo epistêmico, evitando a especialização
e fragmentação reducionista. Não se trata de um evento com perfil profissional
definido; convidamos nesses anos de trabalho, psicanalistas, sociólogos,
antropólogos, advogados, literatos, poetas, cientistas, historiadores,
arquivologistas, artistas, filósofos, etc., com intuito de promover o exercício
do pensamento transdisciplinar. É um encontro de Estudos Culturais, que tem
como fundo a Epistemologia da Complexidade. Nossa orientação teórica converge para
esse horizonte filosófico mais amplo.
Perguntas de Paulo
Melo.

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