A MORTE DA CULTURA
Debate que ocorrerá no dia 10
de novembro, quinta-feira, às 18h30; No auditório do
Corecon-RJ (Av. Rio Branco 109 – 19º andar, Centro).
Com a seguinte programação:
Ø Apresentação dos dados orçamentários referentes às questões culturais;
Ø
Debate com:
1. O Dr. Maurício Andreiuolo, Procurador da
República na área de meio ambiente e patrimônio cultural;
2. A Profª. Claudete Félix, curinga do
Centro de Teatro do Oprimido;
3. O Economista Felipe Ribeiro, FUNARTE;
4. O Conselheiro Paulo Passarinho,
mediador.
Ø
Debate livre.
O
acesso é livre, gratuito e sem necessidade de inscrição.
Até lá, equipe FPO-RJ
§ § §
O Suicídio
do Artista
De Augusto
Boal
- “Graças a
V. Exa., podemos agora escolher nossos artistas!” – disse ao Ministro da
Cultura um empresário feliz, em pública reunião, faz dois ou três anos,
agradecendo-lhe a privatização da cultura.
Tempos atrás, cabia ao Ministério e às Secretarias, com quase
exclusividade, o patrocínio das artes. Hoje, vai-se de porta em porta, pires,
pratos de sopa ou cornucópias na mão! – o tamanho de recipiente depende da
intimidade que se tenha com o poder. Para as empresas, alegremente autorizadas
a usar dinheiro de impostos na estética publicidade dos seus produtos, foi
grande negócio. Para os artistas, creio que não: dou meu singelo testemunho.
No ano passado, graças ao CCBB, dirigi uma experiência teatral de certa
magnitude, a SambÓpera CARMEN, na qual se respeitavam as melodias de
Bizet casadas com nossos ritmos.
Sucesso extraordinário. Tanto, que o New York Times publicou
tremenda reportagem recheada de fotos do espetáculo que, para o jornal, não
tinha equivalente em mais de cem anos de vida dessa ópera – agradável exagero!
O diretor do Festival Paris-Quartier d´Été acudiu correndo, e convidou
CARMEN para se apresentar no coração de Paris, no Palais Royal, teatro de mil
lugares, cercado pelo Louvre e pela Commedie Française, em julho passado.
CARMEN é, por excelência, a ópera nacional francesa: sua versão
sambística, em Festival tão prestigioso, causou espanto e admiração. Felizes,
resolvemos reincidir e preparamos outra SambÓpera: Verdi, LA TRAVIATA,
homenagem ao quarto centenário do gênero Ópera que nasceu com a famosa
EURÍDICE de Peri-Rinuccini, composta para celebrar o casamento do Rei Henrique
IV com Maria de Médicis.
Maiores atrativos publicitários, impossível: samba, ópera, Verdi, Bizet,
Times, Paris, Festival... Estávamos certos de que os empresários fariam
fila à nossa porta, gritando ofertas como se estivessem em pregão da Bolsa de
Hong-Kong.
Não estavam... Fomos à cata da produção com cinqüenta cópias do nosso
Projeto, CDs e partituras. A maioria das empresas consultadas já disse que o
projeto é belíssimo: “Você, Boal, sempre inventando, heim?... porém... não
combina com os nossos produtos.” Os comerciantes querem vender: nada mais
lógico. Loucura nossa pensar que uma heroína-prostituta, que morre tuberculosa
no quarto ato, fosse capaz de vender espaguete ou pertences de feijoada, por
exemplo. Deveríamos, talvez, ter procurado um fabricante de penicilina ou
pneumotórax: erro nosso!
Diante da ameaça de novas e contundentes recusas, pensei que, se não são
mais os artistas que determinam seus próprios caminhos e sim os empresários - a
quem devemos respeitosamente ajudar a vender suas mercadorias! - mais cedo do
que se pensa, nossa arte, já razoavelmente moribunda, estará à beira do
falecimento total e definitivo, em cova rasa.
Como denunciar essa morte silenciosa? Pois que de outra coisa não se
trata, se não de morte, o fato de se deixarem artistas sem patrocínio. De que
serviria Van Gogh sem pincéis e tintas? Beethoven e Mozart sem piano ou cravo?
Embora eu não saiba tocar nenhum instrumento musical, por mais reles reco-reco
que seja, nem tenha intimidades cromáticas com pincéis e tintas, pensei em
suicídio. O Suicídio do Artista Sem Patrocínio!
O exemplo me veio do Vietnã: monges se matavam afim de atraírem a
atenção do mundo sobre a guerra iníqua. Conhecendo as necessidades da
propaganda, não morriam confortáveis em suas camas, solitários, ou bebendo
cicuta em canudinho, como Sócrates, entre bons amigos: eram espetaculares e, em
praça pública, ateavam-se fogo às vestes, diante de flashes e câmeras de
TV.
Pensei que o Suicídio do Artista Sem Patrocínio deveria seguir as
mesmas normas de teatralidade daqueles religiosos. No Brasil, porém, as pessoas
andam tão atarefadas, completando seus magros salários correndo de um emprego a
outro, que um homem, esturricando-se ao sol do meio dia, no Largo da Carioca,
talvez não atraísse o público desejado; talvez não desse Ibope. Imaginei,
então, uma orquestra modesta que atraísse transeuntes para perto do suicida:
eu, é claro, porque nenhum dos meus colegas - sempre tão solidários e mesmo
achando a idéia ótima! - aceitou o sacrifício, por mais que eu insistisse.
Deviam ter lá suas razões.
Sendo a música de boa qualidade - como é, no nosso caso! – talvez
corrêssemos o risco inverso, atraindo demasiada platéia: seria então necessário
construir uma plataforma sólida para o incendiado, e arquibancadas à prova de
fogo para os ávidos espectadores.
Labaredas são mais atraentes e coloridas em silenciosa noite escura do
que ao sol gritante. Portanto, nosso espetáculo pirotécnico deveria ser
realizado depois do anoitecer, o que nos obrigaria à instalação de, pelo menos,
20 ou 30 refletores.
Para gerir esse belo espetáculo incendiário, necessitaríamos
maquinistas, eletricistas, e teríamos que contratar uma boa agência de
promoções, imprimir convites e um programa explicativo da filosofia do evento –
pois que a tinha! - em bom papel de seda, etc. Sobretudo, fazia-nos falta um
excelente produtor. Isso não se faz sem dinheiro.
Recorremos então aos Captadores de Recursos, profissão inventada
pela atual Lei de Incentivo à Cultura, como contribuição ao combate ao
desemprego: são especialistas encarregados de fazerem as empresas soltarem a
grana.
Até hoje nenhum Captador respondeu, sequer, à nossa demanda. O
maravilhoso e emocionante espetáculo do Suicídio do Artista Sem Patrocínio
fica, assim, adiado sine die... por falta de patrocínio. Talvez para
logo depois da silenciosa e recatada Morte da Arte e da Cultura.
Pede-se não mandar flores.
Se, porém, sua vontade de prestar esta última homenagem fúnebre à nossa
cultura em coma for irresistível, sugere-se o envio de doações, ajudas,
subvenções, etc., ou simples palavras de afeto, a algum jovem grupo de artistas
cênicos ou plásticos, que saberão explicar porque escolheram dedicar suas vidas
à arte e à cultura, ao invés de atividades mais lucrativas como os leilões e a
Bolsa, nesta época em que o Lucro e o Deus-Mercado são a mais recente
encarnação do bezerro dourado.
§ § §
Vivemos num tempo em que
é possível destruir o Maracanã, símbolo maior da cultura popular do futebol, e
destinar dinheiro público (R$12 milhões) para um festival privado de rock (Rock
in Rio). Por outro lado, o Rio não dispõe de um conselho de cultura com
participação da sociedade na definição das diretrizes culturais carioca. Talvez por isso essa cidade tenha sido capaz
de erguer a ex-futura Cidade da Música por inaveriguáveis R$500 milhões!
No final da década de 1990 o genial Augusto Boal implorava
por um patrocínio ao espetáculo “O Suicídio do Artista” (texto acima) e
vaticinava: a cultura morreu!
Você está convidado para o debate!
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Nilton Soares de Souza Neto (SINDSERJ).
Nilton Soares de Souza Neto (SINDSERJ).

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