07 fevereiro 2012

Patrimonialização (e Musealização) das Diferenças

Excessos da Patrimonialização na Alta Modernidade


O antropólogo mexicano Roger Bartra no livro CULTURAS LIQUIDAS EN LA TERRA BALDIA (MADRID, BUENOS AIRES/2008) apresenta de modo direto uma questão que pode nos ajudar a pensar o tema em tela, nesse momento. Pergunta: 

?Es posible que las culturas desterritorializadas recuperem, mediante la construccion de las tradiciones historicas, la memoria de la indentidad que han perdido?” 

É importante frisar o final da pergunta: "la memoria de la identidad que han perdido". Ao prestarmos atenção na interrogação, não observamos qualquer ambiguidade; a "memória da identidade" perdeu-se. 
As perspectivas mais românticas e nostálgicas considerariam tal afirmação no mínimo exagerada e, talvez, inadequada. Mas, no autor, não percebemos qualquer complacência. De tal sorte que o antropólogo conclui seu ensaio, desconcertante é certo, recuperando uma imagem poética desoladora, a Terra Baldia (Waste Land) de T. S. Eliot.
Diferentemente de Hobsbawn, por exemplo, não temos aqui uma tentativa de teoriação sobre a "invenção das tradições" a partir de momentos de crise, sustentando a possibilidade de continuidade das identidades tradicionais; teoria utilizada ad infinitun pelos pesquisadores e estudiosos do patrimônio e da memória. Com R. Bartra, finalmente, saimos dessas repetições teóricas obssessivas que não oferecem interpretações penetrantes, pois atingem a superfície da questão; quando não são apressadas demais em confirmar a 'verdade' do cânone. Tal teoria que nem oferece explicações ao fenômeno complexo e profundo das trasnformações e descontinuidades, isto é, da ruptura e quebra da Tradição (Arendt) - que é o que merece objetivamente, e também subjetivamente, nossa atenção conceitual e teórica maia atenta. De nossa parte consideramos que não há "invenção da tradição", muito menos ainda a tal da "re-significação" do passado. No momento em que se fala em "invenção" já não estamos mais falando de Tradição; é outra coisa, não há mais continuidade: a não ser como fóssil cultural. Ao sugerir "invenção" já nos introduzimos num mundo pós-tradicional, - melhor entendido como híbrido cultural -, e jamais re-significado; adquiriu, sim, definitivamente novo significado a posteriori (apres-coup = outra memória [Jeudy, 1990]). Algo que Maffesoli já nos apontava quando indicava o uso de "pós-moderno" aquele esforço em acoplar o arcaico ao high tech; não se pode dizer que um produto de tal 'acoplagem' possa ser considerado "re-significado" ou "reínventado": mais uma vez, é outro. Outra memória, outro processo de formação subjetiva e identificatória, outro sentido...


A pontuação ideológica da ideia de re-significação do passado e da tradição.

Uma das metamorfoses da ideologia culturalista, mais recente, repousa nos usos e abusos desse termo "re-significação". E é na interpretação do significado político desse termo, que podemos atingir mais profundamente o alcance socio-antropológico mais preciso, da questão formulada por R. Bartra.
Re-significar é o último avatar da Tradição que não quer morrer. Já morta reluta em sucumbir, atrelada a grupos conservadores e tradicionalistas das sociedades oligárquicas remanescentes do Antigo Regime. É perceptível, para qualquer pesquisador que vasculhe a aparição desse termo nos textos dos folcloristas e antropologistas do stablischment, a ideia pseudo-pós-moderna de que a Tradição pode ser re-significada, ou reinventada. Não passa de uma nova roupagem de antigo discurso: discurso católico e ecumenista. Essa ideologia foi muito bem decifrada e interpretada por Canclini em Culturas Híbridas (2003). 
Possivelmente, estamos nesse momento afortunado superando um obstáculo epistemológico importante, qual seja a mistificação dos poderes de permanência do passado tradicional barroco e católico; ao menos entre nós, latino-americanos. 
Ao contrário dos teóricos da manutenção dos traços mnêmicos mascarados e transfigurados (re-significados) - como disse K Marx, a "história só se repete enquanto farsa" - constatamos uma ruptura de descontinuidade vertiginosa, em que os 'passados', e a Tradição, estão difinitivamente mortos (Arendt). Do Barroco histórico ao neo-barroco pós-moderno!

Outra Memória: pensar o novo - desafio enfrentado sem paixão interpretativa.

De modo recalcitrante, e de certa forma muito preguiçoso, observamos a mesma cantilena repetir-se décadas a fio. Mas, será que chegou o momento de assitirmos uma ruptura com a ideologia pseudo-academista, em que o cânone da identidade se atrelou, testemunhando então um salto epistêmico de profundidade? 
Parece que algo de novo surge na percepção dos especialistas. Depois de repetirem incansavelmente que a "tradição" poderia ser "re-inventada" e "re-significada" indefinidamente; enfim, assistimos esgotar-se esse coro trágico. A cena cultural e política está a exigir novas práticas interpretativas. Todavia, não podemos nos alegrar tão apressadamente, pois essas questões do patrimônio, da identidade e da memória, envolvem muitas subjetividades e particularidades capilares: amizades, compromissos, alianças... Tudo para manter o controle do "campo do patrimônio". Recursos, investimentos, verbas, são disputadas, porque escassas. Assim, temos compensações e esfriamentos críticos repentinos. Pode ser que o avanço epistêmico desejado seja abortado a qualquer momento, já que depende do resultado das "forças" e "disputas" no espaço social (sim, espaço, pois o "patrimônio" não possui autonomia relativa, ao qual se possa atribuir o conceito de "campo") da memória e do patrimônio oficial, e universitário.
Assim, devemos ter cautela e algumas esperanças logo serão abandonadas. Como escreveu T. S. Eliot: "Eu disse para minha alma, fique quieta, espere sem esperança".
Porém, a força crítica pode surpreender e vir a tona!
Nosso trabalho segue o rumo dos desafios teóricos abertos, sem cumplicidades com cânones (ou franquias teóricas). Vertente que sugere a abertura da mente para novos horizontes antropológiocos, realmente novidadeiros! Trilhas heterodoxas, algumas vezes consideradas heréticas!
Em contra-partida, repetem-se reuniões e eventos desapaixonados e melancólicos, reproduzindo repertórios interpretativos estéries; fruto de compromissos e cumplicidades com a ordem cultural e subjetiva dominante. Apaziguam, acaletam, adormecem e narcotizam, mentes abaladas pela velocidade das mudanças... um estresse vivido com angústia, transformando rivalidades em hostilidades perversas!
Ao romper com as estruturas ideológicas oficiais, teme-se o ostracismo, o exílio, a heresia... Mas, se esquecem os representantes inconscientes dessas vertentes resistentes (no sentido psicanalítico), atualmente estabelecidas e empoderadas: o processo de construção de sentido e do significado, permanece essencialmente político e as batalhas conceituais ainda não terminaram! Aliás, ainda nem começaram!  

(Continua)

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