06 fevereiro 2012

Transversalidade e Universidade

Meleagro
'Onipotência de pensamento' em tempos de virada "educacional" do capital.

A discussão sobre trans/multi/inter-disciplinaridade, nos faz lembrar algumas reflexões de Freud, expressas na famosa obra Totem e Tabu (1913); mais particularmente, nos termos dos alcances interpretativos do que designava de "onipotência dos pensamentos".
Tema que parece nos aproximar dos estudos sobre xamanismo, magia, animismo, neurose obsessiva e etc.;, mas que pode nos ajudar a avançar nos estudos sobre formaçào profissional em Sociologia.
Permitam considerar que expressões como "ciências sociais como juízo da sociedade", "unificação do campo epistêmico", "nova alinaça entre as ciências", "nova ciência" etc., podem nos conduzir por caminhos muito curiosos, considerando tais aportes.
Antes dos cientistas pós-modernos, os xamãs também reclamavam, e ainda reclamam (seus remanescentes) por um "conhecimento" vasto, unificado e profundo; de largo alcance. Sobre alguns aspectos do pensamento mágico, Freud chegou a escrever na obra citada, que há um tipo de "retorno do totemismo" na infância, e que o neurótico adulto, de certa forma, por processos de regressão, sofre de perturbações narcísicas que conduzem a nostalgia da crença na "onipotência dos pensamentos"; mágicos, totais e englobadores do mundo fenomênico.
A ciência seria um tipo de conhecimento mais maduro, civilizado, adulto; segundo esse raciocínio evolucionista.
Todavia, recuperando esses ensinamentos e tentando relacionar com o tema em tela, podemos arriscar algumas ideiais quanto ao tipo de relação de poder que se expressa em Departamentos Universitários: "chefetes", "egos inflados", "senhores feudais", "feudos", etc. Tomamos, em certa medida, tais esteriótipos como 'instâncias' que na verdade determinam, ou não, a existência de sub-disciplinas, ou aglomerados disciplinares... Conjunções e disjunções carregadas de subjetividade. A despeito de levarmos em conta a produção e reprodução destes capitais simbólicos, tão disputados, considerando sua circulação e distribuição enquanto capitais, comumente temos passado ao largo de importantes socio-lógicas, por vezes, surpreendentes. Ao revelar os subterrâneos das formas de transmissão de saberes e poderes, revela-se a dimensão oculta, e sempre recalcada, dos enlaces mais íntimos e privados. Nem tão particulares assim, mas muito poderosos, encontramos também o núcleo das dificuldades mais "nervosas" desses problemas. Como é fácil ver eclodir, ou provocar, reações estressadas e sentimentais, quando vasculhamos esses meandros... Por isso, temos que ter muito cuidado, e já adiantar desculpas, caso sejamos mal entendidos, nesse ponto crucial.
Voltando a Freud, e a um tipo de meta-psicologia selvagem, numa época de nova barbarie, podemos entender tanto desconforto e tanta defesa; afinal, coloca-se em cheque a nossa própria trajetória no espaço social universitário: tanta reminiscência nos traz!
A vontade de poder e saber, e a vontade de verdade, que estão subjacentes a esses domínios da produção dos Homo Academicus na atualidade, acabou nos chamando a atenção para os tais "egos inflados"! Contudo, logo-logo, quando chegamos nesse ponto, o debate muda de direção; voltamos para as leis, para os cursos, para os Editais...
Porém, seria interessante avaliar politicamente essa dimensão de produção e reprodução dos tais "egos inflados"; perguntando: - de onde vem seu poder? Narcisismos, xamanismos, magia, aninismo...
Proliferam cada vez mais, disciplinas-tótens; disciplinas-feudos... Egos de senhores feudais...
Mas, e a tal da encantada transdisciplinaridade? Será que poderíamos dizer que isso seduz exatamente porque vem como uma resposta, inconsciente é verdade, - porém carregada de atração -, se encaixando como uma luva no momento que há uma virada do capital no espaço social da educação e do ensino. Ensino-mercadoria feitichizada, que adquire grande atração, num momento de crise de referências e critérios de valor.
Vejamos o quanto é vantajoso se difundir, num momento de crise, a ideia de que as Ciências Humanas são um todo informe, que não há mais formação disciplinar, e que tudo reduz ao conhecimento transversal; os diplomas se equivalem - sendo diferencial a performance individual - e capital pessoal, de suas relações mais íntimas...
Não estamos falando aqui de ordem disciplinar, no sentido foucaultiano, mas no sentido profissional. No momento que se difunde, magicamente, a ideia de que em CH se pode ter acesso ao suposto saber, independente da formação profissional/disciplinar; resta, então, as relações pessoais e os laços subjetivos! Os Mestrados e os Doutorados, só fazem ilustrar esse currículo da "transversalidade" e da "transversalidade" do futuro sábio.
Para completar a configuração desse caráter pós-moderno do discurso universitário, re-encontramos a chave interpetativa, indicada mais acima: a "onipotência do pensamento". Saber tudo! Basta uma licenciatura, ou bacharelado, em algum curso de CH e pronto! Eis o suposto saber das Humanidades, encarnado num único indivíduo - e se tiver mestrado ou doutorado em algum curso mais "transversal", fica selado o destino, e como uma dádiva, o sucesso na Academia! Se tiver a chancela de algum "MESTRE", abrindo magicamente as portas das "transversalidades", melhor ainda!
Bem-vindos ao deserto das vaidades e dos narcisismos academicistas! É o que cinicamente vemos ser propagado nos intervalos dos cursos de graduação e pós-graduação!
Professores-mestres - os Marco Polo viajantes - dos quais temos que obter empatia e simpatia, para poder sobreviver e viver nessa selva de gigantes do pensamento "transdiciplinar". Professores e profissionais "trans"... Super-trans...
Creio que isso é um desvio adequado a ordem subjetiva dominante. É conveniente difundir facilidades e diplomas fast foods, para que, sem rigor, sem critérios, vicejem os mais heterogêneos tipos de professores e profissionais - fáceis de serem digeridos e enquadrados na máquina.
Por isso, os sindicatos estão abandonados - eles são considerados nostálgicos ao proporem critérios de formação "disciplinar" coerentes, em avaliações de concursos, certames e empregos.
Nossa visão é distinta. Sugerimos que os jovens entrem nas Universidades, em ciclos básicos de formação, e que ao desse período inaugural, passem para um novo ciclo profissional/disciplinar. Para serem selecionados, deve se exigir conhecimentos disciplinares adequados e precisos.
A tal da transdisciplinaridade só pode ser atingida após longos períodos de estudos e pesquisas na disciplinas (História e Teoria); combinando amadurecimento pessoal e profissional.
De outro modo é "xamanismo" inconsequente, ou melhor, fetichismo academicista em tempos de virada "educacional" do capital!


(Atenção! Reflexões críticas em construção!).

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