19 abril 2012

Culturas Líquidas e Culturas Petrificadas

A obra de Roger Bartra Culturas Líquidas en la Tierra Baldia nos ajuda a refletir sobre o Monumento das Três Raças de Goiânia.

A análise de Bartra invoca um jogo de linguagem em que o pétreo e o líquido se rebatem, na alta modernidade. Do pétreo das identidades nacionais homogêneas, seguras, em suas configurações estatais; para o líquido, contaminado pelas migrações, êxodos, nomadismos, exílios, derivas... 
Ao observar o monumento de Goiânia podemos considerar aspectos instigantes desse diálogo, e aprofundar o exame analítico proposto.
Sem dúvida, colocar os olhos sobre o monumento das três raças após a leitura do texto, produz um efeito desconcertante, além de penetrante e crítico.
O texto de Bartra pode ser consultado e lido num resumo denso publicado em 2004: 


Esse material reflexivo pode ser reativado com a aproximação das comemorações históricas pelo Bicentenário da Independência do Brasil, em 2022. 

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ASPECTOS REFLEXIVOS

Após uma observação ligeira deste monumento à cidade de Goiânia, podemos inferir aspectos importantes sobre o processo de representação da produção de identificações culturais e simbólicas na sociedade brasileira. Vamos tomar um olhar distanciado, nesse caso específico como parte integrante do grande mosaico cultural nacional, como é o caso de Goiânia e do Estado de Goiás.
É de se destacar a materialidade do monumento, em que sobressai o erguimento de um monolito em granito, com três figuras humanas representando as três raças em trabalho solidário, terminando por edificar e sustentar na vertical, um bloco de pedra compacto que carrega no seu topo o Brasão da Cidade de Goiânia, fundada em 1933, e comemorada festivamente na década de 1960.
Monolito de pedra que pretende condensar uma concepção de cultura e sociedade amalgamada por misturas e mestiçagens; tão exaltadas, nos mais diferentes tipos de expressão artística. Esse monumento de 1968 parece nos oferecer de modo especial a cristalização de uma ideologia cara à nossa formação sociocultural moderna. E o modernismo se estrutura de modo exemplar, quando se considera o fato da cidade de Goiânia ter nascido em pleno processo de criação e formação do Estado Novista, na década de 1930. Goiânia seria assim a cidade que incorporaria os novos ares da modernidade, industrializada e urbana, em nosso país. Modernidade homogeneizadora, ideologicamente uniforme, unívoca e unidimensional, já que privilegiou aspectos técnicos e físicos na construção de um novo perfil civilizacional brasileiro.
É desse contexto que sobressai a imagem sedimentada de um monolito de pedra, erguido por três figuras heroicas em meio ao sertão bravio e selvagem, - no meio do nada - ganhando em eloquência e expressividade: representando, além de tudo, uma mentalidade, uma ideologia, um paradigma cultural. Destaca-se do texto a expressão "no meio do nada"! Em que observa-se uma tentativa de nos fazer crer que há um ponto zero, do qual partimos. Quando se sabe que não há esse "no meio do nada"! Antes de erguer-se Goiânia, gerações de seres humanos ocuparam esse espaço geográfico do Planalto Central. Mas, para nós brasileiros tudo começa a partir do nosso povoamento: antes só havia selvagens!
O caráter petrificado, pétreo e monolítico do monumento sugere essas associações e interpretações.
O século XX trasncorreu sob essa força representativa e simbólica poderosa. Cultura e sociedade cristalizada em pedra, sólida, resistente, duradoura, homogênea, firme...
Mas, no início do século XXI, como fica essa representação pétrea, sólida e homogêna, num mundo globalizado, fluído, líquido, cada vez mais heterogêneo, múltiplo? Mundo de nomadismos, individualismos, fluxos migratórios, desterritorializações, interconexões... Como a imagem desse monumento se sustenta e dialoga com a nova realidade que nos afugenta e atinge de modo inexorável, desconcertante e veloz?
Todas as culturas líquidas, fluídas, fragmentadas, nômades, desterritorializadas que habitam transitoriamente esses espaços sociais urbanos, ditos pós-modernos, podem ser representados por monumentos dessa expressão e magnitude? Que tipo de monumentalidade poderia representar nossos dramas sociais contemporâneos? É possível ainda, alguma monumentalidade nesse nosso mundo?
O mundo social contemporâneo nos parece cada vez mais instável, circunstancial, momentâneo, fugaz e fugidio - nada que se pareça com a solidez de uma pedra ou rocha granítica, a ser erguida por todos em trabalho solidário -, tal solidariedade é cada vez mais deslocada, concorrente e dispersa. Os conflitos se manifestam, a harmonia desaparece e o que fica é um traço de nostalgia recalcitrante, tradicionalista, folclorizante e disfuncional. Tais imagens monumentais não condensam mais o processo de formação que nos acomete e impulsiona para um novo, estranho e inusitado des-concerto.
Esses monumentos se encontram esquecidos, ocultos na paisagem, sem sentido, sem representação atualizada, desprezados, negligenciados, pelo olhar indiferente das massas contemporâneas, que não têm qualquer identificação com esses objetos e peças monumentais anacrônicas. Tais monumentos, - como o do Bandeirante, do Anhanguera, Pedro Ludovico, etc. - não recebem da população em geral, qualquer olhar de simpatia ou identificação. Verdadeiros fósseis de um passado, recente ou remoto, que já não dialoga com o presente fluido, acelerado, mutante, vertiginoso...
Parecem liquidados para o devir, como testemunhos de um diálogo mudo e surdo, e absolutamente ocultos e invisíveis. Ocupam lugar de destaque na paisagem, mas não são vistos, não recebem qualquer investimento ou reciprocidade subjetiva ou identificatória significativa. Passam como restos, dejetos, em um processo poderoso de transformações. Sua memória não tem como ficar inscrita de modo arbitrário, e autoritário, nessas paisagens opacas, sem espessura. Não se perpetuam memórias em pedra - até mesmo as pedras não resistem a liquidez das transformações ("tanto bate até que fura!").
Os homens e mulheres do passado acreditavam que as pedras e as rochas, esculpidas e caracterizadas com seus símbolos e ideologias, resistiriam e se perpetuariam nas paisagens das cidades; todavia, o que testemunhamos é a indiferença, a ignorância e o desprezo por essas imagens e figuras sem representatividade. Figuras que não resistem ao tempo, mesmo que gravadas pela escolaridade teimosa dos livros didáticos de História e Geografia, na mente dos nossos estudantes. Diluídas e líquidas, perdem espessura, solidez e efetividade. Não parecem cumprir mais com seu papel civilizatório, e tampouco são re-significados; são simplesmente esquecidos! E por que não?

Roger Bartra indaga:

"Si seguimos el juego metafórico, podemos preguntar: ¿qué clase de cultura líquida se derrama por las grietas del terreno seco de la modernidad? La posmodernidad ha traído flujos sociales que alientan formas inestables de empleo, responsabilidades económicas que huyen de los territorios delimitados, movilidades globales que viven en la incertidumbre, oleajes y vaivenes políticos que no respetan las soberanías estatales antiguas, derramas de población que provienen de remolinos caóticos en la periferia del mundo. Sin duda se está expandiendo una nueva forma de vivir. Una burbujeante política posdemocrática comienza a empapar a la sociedad, que se ve dominada por una creciente irresponsabilidad húmeda y blanda."

(http://revistareplicante.com/culturas-liquidas-en-la-tierra-baldia/).

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Monumento das Três Raças

Foi criado em 1968, pela artista plástica Neusa Moraes, essa peça artística representa a miscigenação das três raças (o negro, o branco e o índio), presentes nas características do povo goiano. Tem 7 metros de altura e pesa cerca de 300 quilos e as figuras humanas são feitas de bronze. Sua localização é na Praça Dr. Pedro Ludovico Teixeira, mas conhecida como Praça Cívica, onde se encontra a sede do governo estadual. 

Curiosidade: Este monumento foi o símbolo escolhido para representar o site TOPGYN.


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O Monumento das Três Raças na Praça Cívica de Goiânia

Monumento em frente ao Palácio das Esmeraldas sede do Governo Estadual de Goiás. 
Placas Comemorativas
Monumento à Goiânia dos Rotary Clubes - Jubileu de Prata do Batismo Cultural de Goiânia - 1967
"Ao Povo Goiano - Justa Homenagem àqueles que viveram a grande epopéia da construção de uma capital em pleno Sertão Bruto de outrora". 
No topo do Monumento, o Brasão da Cidade de Goyânia.
Monumento que é erguido com o esforço de três indivíduos a simbolizar o trabalho conjunto das três "raças" que construíram a cidade - "nova capital", em 24 de outubro de 1933. 
É o símbolo da cidade. Ao projetá-la a artista plástica Neusa Moraes representou a miscigenação das três "raças" : branco, negro e índio.
Palácio das Esmeraldas e Centro Administrativo

Monumento e as Bandeiras Oficiais
Monumento às Três Raças.
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Perspectiva da Praça Cívica vazia - final de semana sem carros, na praça abandonada, mas que no dia-a-dia torna-se um estacionamento concorrido.
Esforço das Três Raças em erguer o Monolito da unidade simbólica da cultura local/regional/nacional.
Palácio das Esmeraldas, ao fundo. Conjunto art-déco de interessante beleza, e sobriedade nos traços.
Monumento de singular eloquência - polifonia, de vozes estereotipadas  sob a convergência de uma ideologia unificadora e homogeneizadora!
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Monumento às Três Raças e Loja Maçônica

"Esta obra de rara beleza está localizada na Praça Dr. Pedro Ludovico Teixeira, antiga Praça Cívica, no centro de Goiânia/GO, entre os Palácios das Esmeraldas e Campinas, respectivamente sede dos governos estadual e municipal.
O monumento foi criado em 1968 pela artista plástica Neusa Moraes. Trata-se de uma estrutura fundida com trezentos quilos de bronze e possui sete metros. Simboliza a miscigenação de três raças: negro, branco e índio, que houve e há na formação das características genéticas e culturais do povo goiano.
Para os maçons este monumento esta cheio de significado simbólico, pelo número três, o levantar de uma coluna, e que no projeto original da criação de Goiânia, homenageou a Nossa Senhora Auxiliadora, com um traçado triangular, sendo que o monumento ficou no ápice do triângulo formado pelas avenidas que levam o nomes de rios do Estado de Goiás, ou seja: avenida Araguaia, Tocantins e Paranaíba."

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