11 agosto 2012

Elogio da Traição - São Luís 400 anos


O PASSADO DEVE SERVIR PARA ALGUMA COISA

Alexandre Fernandes Corrêa

Os leitores que hoje possuem mais de 40 anos já devem ter ouvido falar da peça de teatro chamada Calabar, escrita por Rui Guerra e Chico Buarque e dirigida por Fernando Peixoto em 1973. Devido a censura da ditadura militar só foi encenada ao público em 1980. A lembrança desse texto teatral, nesse momento de debates e discussões, sobre a fundação francesa ou portuguesa da cidade de São Luís, nos parece oportuna. Os debates sobre o tema das origens míticas ou históricas da capital maranhense têm adquirido sobressaltos um tanto dramáticos; com partidários apaixonados dividindo-se entre duas posições divergentes: de um lado, a defesa glamourosa dos fundadores franceses (francofilia); de outro lado, os mais tímidos defensores dos portugueses (lusofilia). 
O curioso é que nesse drama semelhanças há com a história de Recife e Olinda, estudadas por nós quando pesquisamos em Pernambuco no final dos anos de 1980. Ao realizar um trabalho de pesquisa antropológico nos famosos Montes Guararapes - nos quais se realizaram as memoráveis batalhas pela expulsão dos holandeses - pudemos constatar que ainda há reminiscências profundas do mesmo conflito entre duas versões de fundação e identificação histórico-cultural. Em Pernambuco encontramos também um dilema parecido, tratado no fundo da peça teatral referida acima. Os autores do espetáculo perguntavam a todos: a qual senhor europeu o Brasil deveria servir? O Brasil - projeto de futura luta nativista pela Independência - teria sido melhor colonizado por holandeses do que pelos portugueses?
No ensaio Festim Barroco (Corrêa, [1993] 2008), nós traçamos algumas considerações críticas sobre as versões histórico-culturais desse conflito, considerando suas conversões míticas e simbólicas mais sobressalentes. Creio que podemos então tirar algumas lições desse trabalho, através do exercício da mitanálise, tomando foco agora sobre os nossos atuais estudos dos mitos e dos ritos de fundação da capital ludovicense.
A personagem histórica Domingos Fernandes Calabar foi utilizado por Chico Buarque e Rui Guerra, no início da década de 1970, como agente de crítica ao momento pelo qual passava o nosso país sob o jugo severo do regime ditatorial militar - período em que eram comuns os usos das metáforas nas produções artísticas a fim de, por um lado, burlar a censura rigorosa do sistema e, por outro, denunciar a situação atual. Na peça encontramos distorções históricas importantes, com intuito deliberado de causar espécie de inquietação, com muita força dramática; licenças mais que compreensíveis naquele contexto. Quando aqui forçamos alguma comparação com o que foi tratado nessa obra, é no sentido de provocar uma movimentação no nosso imaginário social sobre a questão em voga. Afinal, realmente há semelhanças que nos suscitam comparações intrigantes. Em Pernambuco, ainda hoje é comum ouvirmos elogios as possibilidades de maior desenvolvimento de Recife e Olinda, caso os holandeses continuassem como senhores, ao invés dos lusitanos ou ibéricos. Invocam-se as ciências e as artes promovidas pelo "grande" Maurício de Nassau; o esclarecimento dos empreendedores batavos e judeus, em harmonia empresarial; e muitas outras vantagens modernistas e capitalísticas que os holandeses teriam sobre os atrasados, semi-feudais e barrocos portugueses ou espanhóis. 
Em São Luís parece-nos que o ‘elogio da traição’ às origens lusitanas e ibéricas graça com força, ao ponto de ser oficializada a sua fundação por franceses. Contudo, em Pernambuco jamais essa traição ganhou apoio institucional; aliás, naquele estado da federação as Forças Armadas celebram as suas origens, fincadas nas batalhas dos Montes Guararapes, em rituais de rememoração teatralizados, com grande pompa e ostentação espetacular; comemorando a expulsão dos invasores holandeses. Todavia, sempre que pensamos nessas celeumas históricas, fantasiando sobre as faustosas vantagens que poderíamos obter caso fossemos colonizados por franceses ou holandeses, lembramos dos nossos países de fronteira ao norte: as Guianas! Parece que nenhum desses três países colonizados por europeus não-ibéricos são exemplos de alto desenvolvimento nos trópicos. Os defensores de “senhores melhores e mais esclarecidos” se esquecem de visitar os índices de desenvolvimento humano (IDH) desses países fronteiriços colonizados, e alguns deles, ainda submetidos, as três metrópoles europeias tão exaltadas pelos anti-ibéricos: Inglaterra, França e Holanda!
Voltando para a peça teatral, no meio do ATO I, no diálogo entre Mathias Albuquerque (ex-governador de Pernambuco) e a personagem que representa o Holandês, diz-se: “No fim das contas o passado deve servir para alguma coisa...” (2006, p. 45). E como tem servido ultimamente! Pode parecer irônico, mas em São Luís ocorre um fenômeno interessante; enquanto em Recife e Olinda (Pernambuco) se expressa sorrateiramente, e as vezes bem queixosamente, a infelicidade de termos caído "de novo" nas mãos ibéricas, no período designado de ‘Restauração’ (que começa com a expulsão dos holandeses em São Luís!); entre os maranhenses, desde 1912, ao se escolher o ‘pai’ fundador, deu-se atestado ao gaulês. No nosso pacto edípico firmado no começo do século XX, as elites hegemônicas entronizaram os francos como os "verdadeiros" fundadores da cidade e da capital do Estado do Maranhão e Grão Pará. A ‘traição’ foi legitimada e, sem resistências contundentes, percorreu o tempo em celebrações cada vez mais espetaculares, culminando com a apoteótica consagração em 1962! Agora, em 2012, prenuncia-se nova espetacular encenação cívica! Dessa vez, ao que parece, com algumas resistências de membros de academias científicas e de universidades públicas, engrossando as falanges dos descontentes com essa ‘traição’ ou “mistificação francófila”: não querem deixar passar para o século XXI tal atentado aos princípios da historiografia e da verdade histórica.
Reler a peça Calabar: o Elogio da Traição, hoje, é um exercício para o espírito que fará muito bem a todos; movimentando nossa musculatura ética e sacudindo nossa mente das poerias e teias de aranha das velhas e costumeiras ideias, repetidas ad nauseam. Trata-se de uma obra inteligente e sutil que coloca em foco; como escreveu Fernando Peixoto: “o comportamento dos homens entre si, observados numa determinada circunstância histórica. Essa postura traz o texto até nossos dias”. 
Sem dúvida, diga-se de passagem, tal objetivo é alcançado com maestria. E vemos até que, no que tange aos entrelaçamentos dos mitos individual e coletivo, comentados em outro artigo nosso, um dos autores da obra traz no nome a marca desse enlaçamento mitológico. O que nos faz relembrar de Mircea Eliade, quando escreveu: “É por isso que o inconsciente apresenta a estrutura de uma mitologia privada. Podemos ir ainda mais longe e afirmar não só que o inconsciente é ‘mitológico’, mas também que alguns dos seus conteúdos estão carregados de valores cósmicos, isto é, que eles refletem as modalidades, os processos e o destino da vida e da matéria viva. Podemos até dizer que o único contato real do homem moderno com a sacralidade cósmica se efetua através do inconsciente, quer se trate dos seus sonhos e da sua vida imaginária, quer das criações que surgem do inconsciente (poesia, jogos, espetáculos, etc.)” (Eliade, 2000, p. 68-69). Citação que cai perfeitamente no caso, tal como uma mão na luva! 
Vimos analisando os mitos, os ritos, as versões históricas e historiográficas, e os discursos de fundação da cidade de São Luís, há alguns anos, e consideramos que nossa contribuição torna-se significativa e útil na medida em que pretende alargar nossos horizontes para além das obviedades e da dimensão anedótica. Nessa trilha analisamos os contornos desses debates e pontuamos aspectos muitas vezes encobertos e negligenciados; afinal, o inconsciente social é dinâmico e não convêm posturas reducionistas no seu trato. O desafio é trazer à tona continentes subterrâneos que subjazem aos enunciados tomados como naturais e óbvios; trabalho que demanda tempo de elaboração e profunda escavação na história cultural.

Referências

BUARQUE, Chico. Calabar: o elogio da traição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
CORRÊA, Alexandre Fernandes. Festim Barroco. São Luís: EUFMA, [1993] 2008.

ELIADE, Mircea. Aspecto do mito. Lisboa: Edições 70. [1963] 2000.

2 comentários:

Mhario Lincoln disse...

Informamos que pela qualidade técnica e social e a importância dessas discussões neste momento em que São Luís comemora seus 400 (d) anos de fundação (??), dois dos seus ensaior publicados no Crisol foram escolhios para compor nossa edição especial que sairá dia 8 deste. Antes de mais nada o povo sério desse Estado deveria agradecer seus textos. Por isso, nossa urgência e escolha de publicá-los. Conheça nosso portal Aqui Brasil. www.portalaquibrasil.com.br

Alexandre Fernandes Corrêa disse...

Caro Mhario Lincoln, agradecemos o interesse no CRISOL, e a divulgação dos textos! Saudações!