02 setembro 2012

FÉ NA FESTA! VAMOS ENTRAR PARA A HISTÓRIA!

IV CENTENÁRIO DE SÃO LUÍS DO MARANHÃO

Shows para entrar para a História!

Uma festa como essa só daqui a 400 anos!

Estes são os bordões publicitários anunciados na mídia e nos grandes cartazes espalhados pela cidade, nesse período festivo.
Aqui nesse blog, nós apresentamos, entre outros trabalhos, um breve texto comentando o Triunfo do Espírito Festivo
Tudo o que está a ocorrer nesses dias, confirma nossas colocações.
Todavia, a cada hora os acontecimentos adquirem novo colorido e brilho. A Prefeitura lança agora o seu novo slogan: Festa Apoteótica na Virada dos 400 anos de São Luís!
Toda essa efervescência espetacular, não poderia deixar de chamar a nossa atenção, como manifestações epifânicas de grande impacto. Muito embora o que mais nos chama as vistas agora seja a divulgação do nome do Show de Abertura das Festividades, na Lagoa da Jansen!
Na ocasião o artista e ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, relançou seu CD e DVD, produzidos em 2010! Trata-se do álbum FÉ NA FESTA!

FÉ NA FESTA!

Como analistas da cultura esse título do Show, e conjunto de canções, de Gilberto Gil, não poderia ser considerado inadequado; aliás, salta aos olhos a combinação perfeita dessas sincronicidades. Muito oportuna a escolha dos patrocinadores!
Gilberto Gil, além de ser destacado artista, compositor e músico consagrado nacional e internacionalmente, recentemente desempenhou papel proeminente na política cultural brasileira. Portanto, sua presença no evento coroa uma aliança pertinente entre arte, política e cultura no cenário atual.
Porém, gostaria de chamar a atenção para a articulação do tema da festa, do título do disco do artista e da festividade celebrativa em voga; nessa semana de comemorações efusivas.
Revelam-se aos olhos livres, estruturas de larga profundidade no inconsciente social. 
Ao trazer a tona - no momento em que podemos descrever, registrar e recuperar esses conteúdos - conhecimentos sociais implícitos que emergem com grande força, nesse momento de intensa efervescência coletiva.
Fé na Festa, por quê? Para quê? Qual o sentido e o conteúdo dessa mensagem elaborada para um disco de 2010, e agora levantada como emblema no Show de Abertura do evento comemorativo dos 400 anos de São Luís? O que esses slogans, títulos, lemas e frases publicitárias, revelam?
Num texto recente que elaboramos, como contribuição para a análise desses processos sociais comemorativos - verdadeiras máquinas sociais litúrgicas - desenvolvemos reflexões que penetram essas estruturas mais profundas: O Triunfo do Espírito Festivo.
No entanto, aqui em espaço aberto para reflexões mais intuitivas, fica o manifesto de nossa perplexidade em relação ao sentido da proliferação e do contágio de festividades cada vez mais frugais e descompromissadas com as responsabilidades sociais, urgentes e emergentes na sociedade local. 
Sobressai nesse cenário a adesão fácil de todos para o conclave alegre, mas indiferente e sem substância. "A alegria", só por si, "é a prova dos noves" - como está expresso e vaticinado no Manisfesto Antropófago de Oswald de Andrade (1928)*! 
Mas isso não se cogita enfrentar; é por demais desagradável e inadequado, em mais um momento de fuga da realidade. Vamos para bem longe dos seus 400 (d)anos em que nos enjaulam!
Fé na Festa, parece ser o antídoto para todos os males sociais de nossa época, como um remédio, ou sucedâneo milagroso, para nossos infortúnios no presente; investindo nos possíveis benefícios de um futuro incerto: panaceia futurística. Na grande Avenida Brasil: Oi, oi,oi... Mexe e remexe, é uma loucura! 
Fé na Festa é uma espécie de commoditie brasileira, numa sociedade que possui muitos recursos a serem explorados a médio e longo prazo - com promessas nem sempre cumpridas - de alto preço no mercado futuro. 
Fé na Festa é uma questão de crença, católica e barroca, certamente. 
É como diz a canção que dá título ao álbum celebrado no evento de abertura da Mega-Festa dos 400 anos de São Luís

(...)
São João carneirinho quer devagarinho
Mansinho vamos chegar em paz na festa

(...)
Do santinho amado por nós
Nós vamos chegar em paz na festa
Festa, festa na fé
Fé, fé na festa!


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* Manifesto Antropófago: 
http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaBrasileira/Modernismo22/Oswald_de_Andrade_Manifesto_Antropofago.htm

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