11 abril 2013

O Poder Despótico do Afeto

Recebe o afeto que se encerra
em nosso peito juvenil.

Hino à Bandeira.

Num breve texto de Renato Janine Ribeiro(1) encontramos uma sutil reflexão sobre o afeto autoritário expresso nas telenovelas exibidas no país. Recuperar tal reflexão é uma excelente oportunidade para uma vez mais retomarmos a análise de estruturas de sentimentos típicas de nossa sociedade. Consideremos então o problema do afeto que se tece em nossas relações mais íntimas expandindo-se pelo espaço sociocultural mais amplo. Como se sabe, quanto mais arcaica a base das inscrições emocionais mais fortes são os traços e as heranças que carregamos desses processos primários de entrelaçamento.
É constatável o fato de ser muito raro entre nós o predomínio de relações racionais, práticas e objetivas. Ao contrário, as dominantes culturais e subjetivas que nos condicionam baseiam-se em estruturas mágicas e encantadas através das quais sobressai, destacando-se, o apego emocional e afetivo recorrentemente investido. Vivemos numa sociedade em que o laço social se tece pelas "cordas" do coração. Tal traço, como não poderia deixar de ser, é revelador de nossa personalidade cultural e subjetiva mais sobressalente; ao ponto de reconhecermos disseminado entre pessoas de classes diferentes e díspares, o predomínio dos mesmos complexos emocionais: um verdadeiro patrimônio afetivo nacional. Tal fenômeno é tão profundamente enraizado - e democrático - que até entre profissionais nos quais se exigiria o predomínio de práxis racionais e objetivas, constatarmos a manifestação desses afetos arcaicos. Profissionais os mais diversos, bacharéis de formação "superior", manifestam essa dimensão primária da estrutura humana nas suas relações sociais cotidianas. Esse poder se tornou tão "consciente", que entre esses profissionais observamos a estratégia de minar o contraditório e a diferença (divergência e dissidência) através do poder do afeto. É de fato uma estratégia autoritária cada vez mais disseminada no tecido social hodierno.
No entanto, a racionalização devastadora, solapando os sentimentos humanos primordiais, não seria a solução para tais desvios. Muito embora, o poder dessas estruturas específicas de relacionamento e expressão sociocultural, baseadas em sedimentos primários e infantis, produzir efeitos deletérios preocupantes. O apego ao afeto primário, como estruturante das relações de poder, merece nossa atenção. Significa que ainda estamos no reino dos infantis e juvenis que nunca se tornam adultos! E que mal conseguem lidar com frustrações e contrariedades...
O que desejamos atingir com essa ligeira reflexão se estende por diversos prismas, mas podemos circunscrever seu alcance; aqui nessas breves linhas. 
Nosso foco poderia ser regulado para uma dimensão microssociológica importante, aquela das relações sociais de trabalho. E a cena a ser ampliada por nossa lente de aumento é aquela das estratégias de manutenção de grupos e pessoas, no comando e direção de dispositivos ou aparelhos institucionais. Em ambientes de pouca evolução nos processos reflexivos de gestão e gerenciamento, observamos verdadeiras quadrilhas de delinquentes travestidos de "profissionais" agirem como máfias ou gangs; desenhando livremente objetivos de rapina e domínio. É preciso colocar limites a essa disseminação de estruturas perversas: o vale-tudo pós-moderno nos aproxima de uma enrascada fulminante. Tudo isso é impactante, muito embora típico da chamada "era do vazio" (Lipovetsky) e da "corrosão do caráter" (Sennet).
Como a base de solidificação dos laços, e pactos, entre os membros desses grupos perigosos, se baseia comumente na metáfora do "sangue" e do "afeto" - em outras palavras, na tal das "amizades" e nas "relações pessoais" (somos todos família) - o problema da sedução, do assédio e da simpatia é extremamente relevante. Pois os "amigos" geralmente se unem mais fortemente contra um "inimigo" comum, eleito para fortalecer os laços e os pactos dos "amigos". Os perversos se baseiam nessas estruturas primárias para aliciarem e assediarem seus comparsas e encurralarem suas presas. Junta-se a isso a complacência, omissão e leniência dos cúmplices dessas estruturas perversas. Como geralmente têm percepção cognitiva pouco desenvolvida, e uma precária estrutura de sublimação dos "instintos" básicos, esses "camaradas" e "quadrilheiros" encontram jeitos e modos de, através de pactos de "sangue" e "afeto", atingir e conquistar objetivos, insígnias e recursos fiduciários; com facilidades adequadas às suas satisfações mais básicas. É preciso uma análise institucional penetrante e perspicaz para compreender a lógica de reprodução desses sistemas psicossociais. Constituídos por indivíduos geralmente medíocres e primários, moldados para as massas e rebanhos, reproduzem-se em larga escala, ao difundir altos índices de corrosão moral e ética.
Alexandre F. Corrêa.
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(1) O Afeto Autoritário.

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