24 junho 2013

Poesia, exílio, literatura...


ANTOLOGIA DE POEMAS PARA A EXPOSIÇÃO
TORRÃO & EXÍLIO: Imagens Dialéticas.
Galeria TRAPICHE. São Luís.
01 à 10 de Julho de 2013 .

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Canção do exílio
Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Coimbra – julho de 1843

(DIAS, Gonçalves. Canção do exílio.In: FACIOLI, Valentim & OLIVIERI, Antônio Carlos. Antologia de poesia Brasileira: Romantismo. 9. ed. São Paulo: Ática, Série Bom Livro, 1999, p. 26)

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Canção do exílio
Murilo Mendes

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.

A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil-réis a dúzia.

Ai, quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!

 (Mendes, Murilo. Antonio Candido. Presença da literatura brasileira. São Paulo: Difel, 1968)

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Canção do (D) Exílio
Nauro Machado

Não permita Deus que eu morra
nesta terra em que nasci:
que a distância me socorra
e com turbinas me corra
de quem minha nunca cri.

De quem, minha, foi madrasta
desde o início ao anoitecer,
e que como gosma emplastra
o infinito que desastra
meu desespero de ser.

Nosso céu tem mais estrelas,
nossos bosques têm mais vida.
Mas, somente a merecê-las,
se abram os olhos que, ao vê-las,
têm a córnea pervertida.

Nosso céu tem mais primores
quando o crepúsculo baixa:
são os mendigos e as suas dores
carregadas nos andores
como defuntos em caixa.

Onde cantou o sabiá,
cantou outrora a cotovia
e hoje canta, em outro ar,
nenhuma ave, que as não há
nesta terra, morto o dia.”

 (Machado, Nauro. Jardim de Infância. São Luís: Lithograf, 2000, p.46).

NOTA: Nauro Machado, no poema acima, relê a Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, usando-a como pretexto para poder satirizar a consuetudinária hipocrisia da sociedade ludovicense, o que dá ao poema um tom pós-moderno.

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CANÇÃO DO EXÍLIO

1
não chores mais por mim
avezinha
choradeira
em ladeira
só dá olheira

na gillete veneno da gaiola
o grito aflito da navalha
liberdade antídoto implora

2
pleno verão
converso com o coração:
sou eu o vilão

a culpa foi minha
avezinha
absolutamente sozinha

meu voo corsário
o bico sanguinário
a alma daninha

3
não chores mais por mim
avezinha
permita que eu chore
no colo da zinha
minha belezinha:

ave sozinha
minha rainha
eternamente inha!

Ópera Barroca. Luís Augusto Cassas.

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SÃO LUÍS

200 anos de ladeira
300 anos de vieira
400 anos de vinagreira

Ópera Barroca. Luis Augusto Cassas.

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Princípio da Noite

Eu ia em mim perdido, em mim pensando.
A existência deserta.
A rua escura.
Eu sentia a tristeza dos felizes
Vendo a estrela da tarde rir sozinha...
Em que altura ela estava!
O resto era imenso.
Tudo é exílio.

Dante Milano. Rio de Janeiro (1899-1991)

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O Estrangeiro

A quem mais amas, responde, homem enigmático: a teu pai, tua mãe, tua irmã, ou teu irmão?
— Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
— Teus amigos?
— Eis uma palavra cujo sentido, para mim, até hoje permanece obscuro.
—Tua pátria?
— Ignoro em que latitude está situada.
— A beleza?
— Gostaria de Amá-la, deusa e imortal.
— O ouro?
— Detesto-o como detestais a Deus.
— Então! a que tu amas, excêntrico estrangeiro?
— Amo as nuvens… as nuvens que passam… longe… lá muito longe... as maravilhosas nuvens!

Pequenos Poemas em Prosa. Charles Baudelaire.

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Cidade

Sou em efêmero e não muito descontente cidadão de uma metrópole que se supõe moderna porque todo gosto conhecido foi subtraído tanto dos mobiliários e do exterior das casas quanto do traçado da cidade. Aqui não poderíeis assinalar os vestígios de nenhum monumento de superstição. A moral e a língua estão reduzidas à sua mais simples expressão, enfim! Estes milhões de pessoas que não têm necessidade de se conhecer sobrelevam de maneira tão semelhante a educação, a profissão e a velhice, que a duração da vida deve ser varias vezes menos longa daquela que uma estatística insana encontra para os povos do continente. Assim como, de minha janela, vejo espectros novos circulando através da espessa e eterna fumaça de carvão, — nossa sombra dos bosques, nossa noite de verão! — Erínias novas, diante da choupana que é minha pátria e todo meu coração, pois tudo aqui se assemelha a isto, — a Morte sem prantos, nossa ativa filha e serva, um Amor desesperado, e um belo Crime choramingando na lama da rua.

Iluminações. Rimbaud.

Cidades

(...)
Os selvagens dançam sem parar a festa da noite.
(...)
            Que bons braços, que bela hora me devolverão essa região de onde vêm meus sonos e meus menores movimentos?

Iluminações. Rimbaud.

Cidades

A acrópole oficial exagera as mais colossais concepções da barbárie moderna.
(...)
Para o estrangeiro de nosso tempo, o reconhecimento é impossível.

Iluminações. Rimbaud.


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Compleição Formosa.

Advéns de sonhos profundos,
desenhando sua trajetória
entre os meandros da alma.

Acordas semi-desperto,
a te perceber mais inteiro.
Tua s formas se recompõem,
por inteiro de vês ao avesso.

Numa melhor forma,
te encontras cheio de cicatrizes.
Menos atordoado,
vislumbra mais luz.

Até o fim,
talvez te recuperes.
Te abrace um novo ser,
mais constante em si;
mais completo.

Alexandre Correa.
Macaé, 20 de setembro de 2015.

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