19 junho 2013

Antropologia como sintoma dos "nativos"

ANTES DOS "ANTROPÓLOGOS" CHEGAREM!


Encontramos essa charge interessante em que os nativos avistam pela janela um grupo de antropologistas chegando para mais uma expedição antropo-lógica.
Os supostos primitivos se apressam em esconder os objetos da modernidade que têm em casa; arrumando tudo para a chegada e o contato com os "antropólogos"!
Trata-se de uma brincadeira bem humorada, mas cheia de sentido!
O que querem os antropólogos? Querem atestar, medir, o grau de mudança cultural dos nativos? Querem decidir, ou diagnosticar, se ainda são autênticos "nativos", ou não?
As consequências de seus laudos serão mais ou menos difusas, mas podem ser avassaladoras, como se pode imaginar!
São verbas, reconhecimento (nacional e internacional), apoio político, investimentos, etc. Por conseguinte, tem-se em mente que tais diagnósticos adquirem importância sócio-cultural deveras sobressalente. E os "antropólogos" estão excitados e já estão se organizando para se tornarem "profissionais"! 
Até então existia uma associação científica, a ABA. Agora, para se resguardar de possíveis excessos e perda de controle institucional, advém a era da profissionalização da Antropologia!

FIM DOS NATIVOS!

Todavia, somos todos desterritorializados, não há mais nativos; a Terra Natal ficou muito longe! Estamos muito longe dos nossos ancestrais!
A Antropologia chegou muito tarde! Ironia do tempo!

“O ser humano contemporâneo é fundamentalmente desterritorializado”. 
Félix Guatarri. Caosmose.
 
Será que a Antropologia tornou-se um sintoma dos "nativos"? Espelho invertido com reflexos multifacetados?
Perguntas curiosas, mas seria inoportuno refletir sobre seus possíveis alcances?
Não se trata de negligenciar a história da disciplina e reconhecer algumas conquistas para o conhecimento - como os esforços de superação do etnocentrismo e do antropocentrismo; assim como na importância dos movimentos pós-coloniais. Contudo, sabemos bem que a antropologia clássica foi um sintoma do colonialismo e do imperialismo (Jean Copans).
Agora nessa virada do século XXI, caberia inverter - por um exercício de inflexão aparentemente desconcertante - a sentença; e nos perguntarmos: a antropologia enquanto "disciplina" só é possível hoje, enquanto sintoma dos "nativos"?
Colocado dessa maneira não parece algo herético?!
Apesar de chamar a atenção e causar espantos em antropologistas desavisados ou fundamentalistas da ordem disciplinar e academista; vale a reflexão arriscada. Muito embora saibamos que é sempre difícil aceitar a crítica, ainda mais em momento de crise de identidade (profissional).
Desde de Malinowski a angústia do desaparecimento do primitivo assola os românticos do antropologismo. Mas, e agora? Resta agarrar-se a velha noção de "nativo" para garantir continuidade e perenidade eternas? Relativizar ad infinitun a noção de "nativo"? 
Eis uma encruzilhada que poucos desejam enfrentar...

Para refletir...


En 1492, los nativos descubrieron que eran indios,

descubrieron que vivían en América
descubrieron que estaban desnudos,
descubrieron que existía el pecado,
descubrieron que debían obediencia a un rey
y a una reina de otro mundo y aun dios de otro cielo.
Y que ese dios había inventado la culpa y el vestido
y había mandado que fuera quemado vivo
quien adorara al sol y a la luna y la tierra

... y a la lluvia que la moja.


Eduardo Galeano.

* * *

O ser humano, tal como o imaginamos, não existe. 
Nelson Rodrigues


* * * 

Nativo Relativo

Eduardo Viveiros de Castro:



"Roy Wagner, desde seu The Invention of Culture, foi um dos primeiros antropólogos que soube radicalizar a constatação de uma equivalência entre o antropólogo e o nativo decorrente de sua comum condição cultural. Do fato de que a aproximação a uma outra cultura só pode se fazer nos termos daquela do antropólogo, Wagner conclui que o conhecimento antropológico se define por sua “objetividade relativa” (1981:2). 


http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-93132002000100005&script=sci_arttext

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