21 agosto 2014

CRISOL - Casa de Cultura de Paraty

IV Semana Fluminense do Patrimônio (IV SFP).
Casa de Cultura de Paraty. Agosto de 2014
IV Encontro do Patrimônio Fluminense
“Patrimônio Cultural e Grandes Intervenções”.

Palestrante: Alexandre Fernandes Corrêa (Crisol/UFRJ Macaé).
Mesa 2: Grandes eventos como instrumentos de promoção e valorização do patrimônio material.

Tema: Discutir como a realização de grandes eventos pode contribuir para dar maior visibilidade ao patrimônio material (construído e natural) de uma cidade ou região e promover sua valorização e preservação. No caso de Paraty, discutir, por um lado, o papel da Flip (Feira Literária de Paraty) como evento que ano a ano vem conquistando maior espaço no círculo literário mundial e que ampliou a visibilidade internacional da cidade e de seu patrimônio e, por outro, a transformação do território em uma espécie de cidade-cenário com seu centro histórico desabitado e totalmente ocupado por estabelecimentos voltados à exploração turística (bares, restaurantes, galerias, lojas de artesanato, etc).

O “CALOR HUMANO” COMO COMMODITY NO MERCADO TURÍSTICO MUNDIAL.
Resumo:A presente reflexão trata dos impactos intangíveis dos mega eventos na sociedade brasileira, avaliando seus efeitos deletérios na política de turismo cultural e na gestão das políticas do patrimônio biocultural na sociedade brasileira (Corrêa, 2008). Trabalha a hipótese irônica do “calor humano” – apontado como atrativo turístico do país na última Copa do Mundo – tornar-se uma espécie de commodity brasileira no mercado turístico mundial. Não obstante tal reconhecimento, no momento mesmo em que se destaca esse capital simbólico subjetivo, percebe-se sua perda nas políticas dominantes (gentification) que promovem o acelerado esvaziamento e desenraizamento humano das comunidades e populações dos centros urbanos antigos do país. 

Texto:
Boa tarde! Saúdo a todos os presentes. Agradeço o convite para participar do evento nesta bela cidade.
Nessas minhas breves considerações seguirei o roteiro propostonas duas indagações sugeridas para a presente Mesa: a) “Como a realização de grandes eventos pode contribuir para dar maior visibilidade ao patrimônio material (construído e natural) de uma cidade ou região e promover sua valorização e preservação?”; b) O caso da cidade de Paraty.
          Vou me deter por mais tempo sobre a primeira questão, deixando a segunda para o desfecho dessa fala.
Já adianto que como sociólogo com formação pós-graduanda em Antropologia. É importante me situar nessa fala. Acrescenta-se a esse dado profissional minha atuação como professor universitário. Creio que essa experiência me trouxe aqui, somada aos 20 anos de pesquisas específicas sobre políticas do patrimônio cultural.
Destarte, cabe dizer logo de início que não é próprio do cientista social responder questões sobre “como um evento pode contribuir...”; “como fazer para...” - ou outras questões dessa ordem - pois, invocando alguma razão instrumental no métier sociológico. É próprio do nosso ofício esclarecer a sócio-lógica desses eventos, e tentar responder de que modo se realizaram, ou não, as promessas propaladas, e os objetivos difundidos no funcionamento da máquina celebrativa ou festiva. Cabe pesquisar sobre os impactos diretos ou indiretos, conscientes ou inconscientes, promovidos pelo complexo de empreendimentos e ações agenciados para a realização de tais eventos públicos.
Ajustado então os termos da proposição, vamos tentar responder à expectativa geral sobre alguma avaliação mais sócio-técnica. Nessa direção, creio ser útil traçar um paralelo com a realização da Copa do Mundo de 2014. Através de tal aproximação talvez possamos avançar além das obviedades que estariam implícitas; operando como obstáculos à nossa conversação.
É patente que todo “evento”, grande ou pequeno, tem importância social evidente, pois é a manifestação de nossa existência, é a prova de que estamos vivos, chamando a atenção de todos, seja cidade, estado, nação, etc. Portanto, não vamos questionar se vale ou não o investimento em realizar eventos. Por outro lado,precisamos refletir de modo crítico sobre os discursos dos promotores e agentes organizadores: o que se propagou do evento, e como se defendeu e elaboraram suas finalidades: em nome do quê, e de quem, em proveito ou benefício de quem, realizam-se tais eventos?
No caso da Copa do Mundo muito se falou dos diversos benefícios implícitos e explícitos da realização desse “mega evento” em nosso país; assim como da Olimpíada de 2016. Mas podemos dizer que um dos legados mais importantes, muitas vezes apontado como central é o propalado incremento do turismo no país – ainda muito baixo considerando suas potencialidades globais. Com o fim do evento, encontramos exaltações entusiasmadas, a ponto de se sugerir que o Brasil poderia se tornar em breve a“Meca do turismo mundial” (Arias, 2014), mudando a história de índices de fluxos turísticos mais fracos do mundo e mais baixos da América Latina.
Como se sabe o Brasil responde por um fluxo anual de apenas 6 milhões de turistas. Só no período de um mês foram mais de um milhão de turistas que aportaram o país durante a Copa; turistas provenientes de 203 países diferentes. Desse milhão de turistas, 61% não conhecia o Brasil. Para nosso regozijo, registrou-se em pesquisas realizadas 95% dos estrangeiros vindos para assistir aos jogos, afirmaram: “desejam voltar”.
Porém, concordemos seis milhões de visitas por ano é pouco, muito pouco. 85 milhões visitam a França; 53 a Espanha, 30 a Itália... Alguns desses países são até dez vezes menores que o Brasil, em termos de sua extensão geográfica. Os Estados Unidos recebem a cada ano 60 milhões de visitantes; o Canadá, 35; e a China, 55. E no nosso continente, por exemplo, México, Peru e Argentina recebem mais turistas que o Brasil. Então, seis milhões continua sendo irrisório para este imenso país com tanta riqueza artística, natural e humana.
O que ocorre nesse cenário global em que o Brasil se insere de modo muito tímido? Como reverter tais índices, tão desfavoráveis –desejo de todo político e cidadão interessado na melhora desses dados? Mais uma vez os problemas do “como”. Mas afinal o que um cientista social poderia falar sobre o assunto? No nosso caso aqui, mesmo não sendo um turismólogo, mas sociólogo da cultura é possível dizer algumas palavras interpretativas, considerando aspectos que fogem a dimensão puramente econômica. Pois é evidente que aqui predomina a ideia de que o turismo é uma “indústria” ao qual cumpre fazer circular determinado tipo de mercadorias atrativas, necessitando de um bom agente promotor para que resultemtais investimentos na melhoria de vida de muitos brasileiros. No entanto, quais mercadorias são essas? Por que se privilegia a circulação de determinadas mercadorias em detrimento de outras, vinculadas a outras dimensões da vida humana?
Sabemos todos que esse esforço concentrado, com um Ministério específico para tratar desse negócio de Estado, se faz em nome do desenvolvimento. Mas o que se pretende desenvolver? E que tipo de desenvolvimento desejamos? Estamos obcecados pelo desenvolvimento. Porém, de que modo acultura e o turismo associados se prestam para a melhora de nossos índices sociais e econômicos, isto é, para a elevação do nosso PIB? Somos tomados pela ideia de que há uma vocação “natural” para o avanço de nossas potencialidades turísticas, e a cultura, e a natureza, conjugadas, ou em separado, são privilegiados no Brasil; isso ninguém nega. Muito se fala que o problema é a falta de infra-estrutura adequada: precário sistema de transporte, terrestre, viário, aéreo ou marítimo; dificultando os negócios. Não obstante serem pertinentes estas observações nos interessa em especial a conjunção desses recursos em tela: natureza e cultura. Quanto a natureza tudo é evidente por si, pois o mundo tropical está associado aos mitos edênicos desde muitos séculos – é fácil ativar esse imaginário e todo seu simbolismo paradisíaco no mundo atual. Mas qual é o problema da cultura? Quais as dificuldades do desenvolvimento do chamado turismo cultural?
Como se tem difundido, os turistas que se destinam ao Brasil são seduzidos pelas qualidades e belezas naturais, culturais, artísticas, gastronomia, contudo são igualmente contagiados pela simpatia de seu povo. Sobressai aqui algo que nos interessa em especial, pois adentra na dimensão intangível e subjetiva da vida sociocultural. O Brasil destacou-se nas pesquisas realizadas, como um país possuidor de “cartada única”, qual seja a carta do calor humano de seu povo. Somou-se a esse destaque a capacidade de aceitar os estrangeiros e a ausência de discriminação e fobias, existentes hoje em muitos outros países.
Temos então algo importante nas mãos, uma herança cultural de grande poder de “sedução”: o patrimônio afetivo, subjetivo e intangível. Um milhão de turistas reconheceram que os habitantes são simpáticos e sempre acolhedores. Mas simpatia e hospitalidade não são mercadorias vendáveis, nem atrativos mensuráveis, tampouco são quantificáveis pela lógica economicista que não contabiliza essa dimensão simbólica e cultural da vida humana. Em suma, não existe um lugar para commodities dessa natureza na economia política tradicional.
Uma inquietação pode nos sobressaltar. Será que pelo fato do Brasil ter pouco fluxo turístico se preserva assim o capital “calor humano”? A simpatia, o acolhimento ao estrangeiro, hospitalidade, etc., ainda sobrevivem porque não possuímos um fluxo intenso de turismo? Podemos operar com a equação: muito fluxo turístico = atitude blasé, antipática, indiferente e hostil? Esse capital calor humano se desgasta, se consome, se perde? Haveria um tipo de erosão dessa estrutura de sentimento? Com o aumento do fluxo turístico e do estresse resultante, os brasileiros tornar-se-ão iguais aos outros povos já saturados de turismo excessivo?
A hipótese de passarmos por um efeito blasé, - conceito trabalhado pelo sociólogo Georg Simmel (1903) no início do século XX -, em consequência da intensificação do fluxo turístico é algo a ser pesquisado a posteriori. Não obstante essa suspensão do crivo analítico circunstancial, podemos arriscar uma reflexão que considere que essa commodity subjetiva persista como uma rocha na cultura brasileira, e que os brasileiros não se deixem contaminar por essas dilapidações mercadológicas de sua alma. Tudo certamente dependerá da gestão pública desses recursos; e é o que torna essa reflexão útil em alguma medida.
Vamos ao caso de Paraty. Conforme todos sabem, esse sítio constitui atrativo histórico, cultural e natural de grande exuberância. Todavia, ainda não possui um fluxo turístico equilibrado. E é mais especificamente no desenvolvimento final da questão sugerida sobre a cidade, em relação ao problema local, que desejaria sublinhar alguns aspectos da questão, antes de concluir.
Sublinho agora o que está escrito na proposta da Mesa: “a transformação do território em uma espécie de cidade-cenário com seu centro histórico desabitado e totalmente ocupado por estabelecimentos voltados à exploração turística (bares, restaurantes, galerias, lojas de artesanato, etc).”
Trata-se de uma constatação crítica preocupante. E podemos tornar mais aguda a reflexão se a aproximarmos das equações colocadas mais acima. Admitindo que o patrimônio afetivo (simpatia, acolhimento, calor humano) são bens e valores de grande atração no mercado turístico – tornando-se nosso diferencial e potencializando nossa inserção tardia no mercado mundial – de que maneira nós estamos destruindo e perdendo esse capital, antes mesmo de angariar seus melhores frutos;ao deixarmos os centros urbanos antigos de nossas cidades tornarem-se sítios fantasmas, sem sociabilidade, sem vida em comum?
Como encontramos salientado no tema da Mesa: o sítio está “totalmente ocupado por estabelecimentos voltados à exploração turística (bares, restaurantes, galerias, lojas de artesanato, etc.)”; uma constatação clara, objetiva e inconteste.
Como tem salientado a Profa. Ermínia Maricato (2013) privilegiamos a circulação de mercadorias tangíveis, carregadas de pesados custos sociais na promoção dos mega eventos em curso. Mudar a órbita desses privilégios, mudar a lógica das políticas urbanas e culturais, requer uma mudança no enfoque da importância da produção coletiva e na formação subjetiva dominante. Algo que não é tarefa fácil e foge a qualquer empreendimento pedagógico pontual do tipo “educação patrimonial ou ambiental”; tão difundidos. É preciso enfrentar algo mais complexo e que diz respeito as ideologias que nos dominam e tornam “naturais” aquilo que tem escopo sócio-histórico profundo; além de dizer respeito a interesses econômicos evidentes.
Por fim, retomando as indagações iniciais propostas, consideramos que a preservação e valorização do patrimônio biocultural (Corrêa, 2008) não pode estar dissociado de uma reflexão mais geral sobre a ideia de desenvolvimento,dominante na atualidade; nem do processo de constituição e fundação das sociabilidades que nos é inerente. Nossos melhores esforços deveriam seguir na direção de se explicitar um projeto de país, de nação - uma inteligência brasileira - nos capacitando a atingir novos patamares nesse domínio. Se nos alienarmos desses processos -verdadeiros “patrimônios afetivos-subjetivos-intangíveis” - perderemos efetivamente a chance de reverter um quadro desfavorável.
Paraty, tal como todos os outros centros urbanos antigos do país, tem passado por processos cíclicos de gentrification, todavia estes sítios precisam ser repovoados e devolvidosà população, seus verdadeiros habitantes. Desse modo, se garantirá de fato a conservação, preservação e valorização de bens patrimoniais de valor universais, já perdidos em vários países: simpatia, acolhimento, hospitalidade, ou numa só expressão: calor humano.
Como destacava o sociólogo francês Marcel Mauss, na obra Ensaio sobre o Dom (1925), tais valores fundamentais, os quais escapam a moral venal dominante, constituem-senos verdadeiros bens simbólicos e culturais a serem preservados; atrativos essenciais num mundo cada vez mais esvaziado de sentido e afeto.

Referências

ARIAS, Juan. Brasil, a mina de ouro: Poderia o país se transformar agora em uma nova Meca do turismo mundial? El País. 16/JUL/2014 :http://brasil.elpais.com/brasil/2014/07/17/opinion/1405556480_738008.html

CORRÊA, Alexandre Fernandes. Patrimônios bioculturais. São Luís: Edufma, 2008.

MARICATO, Ermínia. Megaeventos são álibi para aprofundar modelo de cidade excludente. Entrevista - 2013. http://rls.org.br/texto/erm%C3%ADnia-maricato-megaeventos-s%C3%A3o-%C3%A1libi-para-aprofundar-modelo-de-cidade-excludente. Acesso: 10/08/2014.

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre o dom. In, Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac &Naify, 2003.


SIMMEL, G. (1997) [1903]. “A metrópole e a vida do espírito”. In: FORTUNA, C. (org.). Cidade, cultura e globalização. Oeiras, Celta.

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