22 dezembro 2014

Sociedade e Tecnologia

Relações entre adultos e jovens na atualidade.

Caminhando por uma rua de Macaé/RJ deparei-me com uma cena peculiar.
Uma família humilde de origem popular e simples, seguia a minha frente numa ladeira relativamente íngreme.
Ladeira no Bairro da Glória - Macaé/RJ
A mulher com traços negros, havia parado na encosta de um muro com a calçada. Remexia um mato que brotava entre as pedras do calçamento e parecia com frutos de mini-tomates verdes. O restante da família sentou logo mais a frente embaixo de uma árvore, protegendo-se do calor e do sol ardente e do ar abafado. Era dia 21 de dezembro, começo do Verão no trópico de Capricórnio.
A senhora continuou mexendo no vegetal e recolheu galhos do mesmo. Ao seguir na direção do marido e dos dois filhos, foi interpelada pelo mais jovem, que perguntou: - O que quer, mãe, com esse mato da rua? A senhora respondeu: - Vocês jovens não sabem de nada. Isso aqui, esses mini-tomates, servem pra muita coisa. Cura ferida, sara furúnculo e outras coisas. É só esquentar e colocar na ferida e no furúnculo que cura... Vou levar, outro dia precisei e não foi fácil conseguir. Vocês jovens têm muito que aprender, não sabem nada dessas coisas.
Mini Tomates
O rapaz juntou-se a mãe que logo seguiu o marido que havia avançado na caminhada com o filho mais novo nos ombros. Virou-se para a mãe e perguntou: - Como a senhora sabe disso? A mãe responde: - Ah, foi teu avô que me ensinou, além de outros mais velhos... O rapaz então arrematou: - É pode ser que a gente não conheça esses remédios do mato, mas a gente sabe de tecnologia, vocês tão por fora... A mãe olhou pra ele e resignada baixou a cabeça se continuou a subida na ladeira do bairro da Glória...
Assim a família seguiu seu caminho até o momento em que desviei para outra vereda. Mas aquele diálogo ficou cravado na memória e brilhou como uma centelha, revelando o âmago de um problema atual de nossa sociedade próprio das relações entre jovens e adultos.
De um só golpe é possível perceber o alcance dessa cena e do diálogo entre a mãe e o jovem filho.
Na mãe, mulher, negra, os conhecimentos antigos, tradicionais, populares, ainda se manifestando e produzindo efeitos socioculturais; no caso terapêuticos. No jovem a força do avanço da tecnologia hiper avançada dos tempos atuais, lançando-o para o futuro. Entre o passado e o futuro as forças se atraem e repelem mutuamente, forçando em todos nós uma tensão poderosa. Hannah Arendt já havia nos alertado para tal impacto, comentando a parábola de Franz Kafka.


Figura original contida no artigo Risco, incerteza e as possibilidades de ação na saúde ambiental. Lieber, R.R. & Romano-Lieber, N.S. Revista Brasileira Epidemiologia. Vol. 6, Nº 2, 2003.

A parábola do escritor Franz Kafka, muito bem interpretada por Hannah Arendt e ilustrada de modo feliz pelos pesquisadores referidos acima, demonstra o campo aberto das possibilidades de síntese, ou de bifurcações, produzidas pelas diagonais que se desenvolvem do encontro dessas forças sociais e culturais poderosas. Seus resultados são imprevisíveis e incertos, mas a força do pensamento nasce dessa tensão.

Outra fonte interessante para desenvolver esta reflexão encontra-se no texto El pensamiento como actividad según Hannah Arendt de Gloria COMESAÑA SANTALICES y Marianela CURE DE MONTIEL, na Revista Utopìa y Praxis Latinoamericana (2006).














http://www.scielo.org.ve/scielo.php?pid=S1315-52162006000400002&script=sci_arttext

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